Angel Dust, o disco mais influente do Faith No More

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Foto: Faith No More / Angel Dust
Em 1992, o Faith No More surpreendeu o mundo ao lançar 'Angel Dust'
Por Bruno Eduardo

Em junho de 1992, o Faith No More disse “Não!”. O lançamento de Angel Dust foi uma recusa à tendenciosa estrada que o grupo se encontrava na época. A fama foi como uma experiência rápida, tipo uma droga intensa. O prazer estampado por tal contato serviu para enganar os fornecedores e os usuários.

O Faith No More conheceu a fama em 1990, um ano após lançar The Real Thing. O grupo ganhou prêmios, vendeu quatro milhões de discos, tocou para multidões e aturou uma tietagem ensandecida. Aqui no Brasil, a fama chegou um pouco tardia, e talvez por isso, obteve um alto grau de intensidade. Em curto tempo, passaram de desconhecidos ao “futuro do rock”. Esse culto, iniciado numa apresentação memorável na segunda edição do Rock in Rio, rendeu uma turnê nacional disputadíssima poucos meses depois. Mas o que ninguém sabia, era que isso seria o mais perto que o Faith No More chegaria do pop um dia.

Se hoje Angel Dust é elevado à arte máxima do grupo, a culpa é da banda (só da banda). Fãs se dividiram, a mídia se dividiu. Em junho de 1992, apenas alguns meses depois, o Faith No More já não era mais unanimidade. A grande verdade é que poucos entenderam a proposta - que era realmente muito subversiva - e com isso, a rasteira foi inevitável. Mesmo assim, foi considerado o álbum do ano pela Q Magazine e pela revista alemã Musik Express Sounds.

Roddy Bottum afirmou na época, que eles entraram no estúdio com um objetivo apenas: “se livrar do rótulo de banda funk o’ metal”. Para o tecladista, isso era algo que incomodava muito o grupo. Tal postura só constatou a repulsa do Faith No More para modelos pré-estabelecidos. A banda que ficou conhecida por sua música completamente desamarrada de estilos, começou a bizarrice em Angel Dust. No disco, apenas “Everything’s Ruined” chega perto do Faith No More de 1989, o resto é algo completamente imprevisível e multi-composto.

A cartilha sofreu um enorme avesso, mas não apenas em sua musicalidade. A imagem da banda ficou tão distorcida quanto a nova ingressão sonora. O grupo de roqueiros cabeludos deu lugar a um estranho quinteto, e os vídeos com efeitos especiais foram substituídos por travestis e scripts obscuros. Afinal, o que tinha se tornado o Faith No More? Hoje, ao ouvir discos geniosamente sem-pés-nem-cabeças como King For A Day, Fool For A Lifetime ou Album Of The Year, a resposta é fácil e óbvia: o Faith No More tinha se tornado uma banda singular.

Tal singularidade expôs o Faith No More a um declínio popular, mas a sonoridade rara de Angel Dust fincou o grupo nos píncaros do pioneirismo do rock pesado - influenciando anos depois, bandas como Korn, Deftones, System Of A Down e Slipknot. 
Em 1992, quase nada era tão estranho e bizarro. 

Tudo em Angel Dust foi tramado e executado durante uma ressaca da fama. Até a belíssima capa do disco em contraste com a sua estranha contra-capa era proposital. Billy Gould afirmou que a arte gráfica resumia o álbum, que continha partes lindas e outras extremamente feias. Canções ruidosas como “Malpractice” e “Jizzlobber” disputavam espaço com outras de melancolia sublime, tipo “RV” ou “Kindergarten”. Segundo o baixista, essa disputa não era nada sadia. Angel Dust mesmo dotado de suprema intensidade, causava desconforto até mesmo para a banda. Billy afirmou: “Há em todas as canções, algo que desagrada algum integrante”.

A voz nasalada de Mike Patton, que já era uma marca registrada da banda em músicas como "Epic" e "Falling To Pieces" foi completamente abandonada pelo vocalista. Em Angel Dust, Patton começou a desenvolver a sua variedade vocal, experimentando novos timbres e abusando de letras subjetivas e poéticas. Se a interpretação de Patton foi um ponto alto, artisticamente falando, comercialmente, a imagem "fácil" do vocalista foi desintegrada. Entre banhos de urina, defecação em programas de rádio e visual embrutecido, Patton tornou-se uma figura cult e abominável. E nada mais foi como antes.

Angel Dust nada mais é que o último suspiro juvenil do Faith No More. Depois disso, o grupo obteve maturidade esquizofrênica suficiente para manter a sua proposta sincopada e variável. Após Angel Dust, o imprevisível passou a ser o maior rótulo do Faith No More e - independente das insanidades sonoras - ninguém nunca mais foi pego de surpresa.
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