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Foto: Ilustrativa
A discografia do Green Day avaliada na série "Do Pior Ao Melhor"
Por Luciano Cirne

Goste-se deles ou não, a verdade é uma só: nenhuma banda punk da atualidade soube se reinventar e conseguiu manter-se na crista da onda por tanto tempo quanto o Green Day. Prestes a completar 30 anos de carreira (o primeiro show foi em Outubro de 1987, ainda sob a alcunha de Sweet Children), o grupo capitaneado pelo boa praça Billie Joe Armstrong já ganhou cinco prêmios Grammy, vendeu mais de 75 milhões de discos, teve uma de suas obras mais aclamadas (o consagrado "American Idiot") transformada em peça da Broadway e foi eleita recentemente pela conceituada revista britânica Kerrang a segunda banda mais influente da atualidade (perdendo apenas para o Metallica). Portanto, com um currículo desses, já estava na hora de alguém dissecar sua discografia tanto para os que só os conhecem graças aos hits radiofônicos tanto para os que torcem o nariz, pois quem sabe dessa maneira abram os olhos e percebam que eles têm muito mais qualidade do que supunham. Como fiz nas minhas análises discográficas anteriores, deixo claro antes de mais nada que álbuns ao vivo e coletâneas estão de fora da lista. E claro, também ressalto que esse ranking foi baseado em opinião puramente pessoal; portanto se você discorda, deixe um comentário dizendo qual seria a sua preferência, será um prazer conhecê-la! Isto posto, vamos ao que interessa:

 12 '¡Tré!' (2012) 
A trilogia"¡Uno!","¡Dos!" e "¡Tré!" é considerada por 9 entre 10 fãs do Green Day como o ponto mais baixo da sua carreira, e o seu ato final consegue a façanha nada memorável de ser o mais fraco dos três. Enquanto "¡Uno!" foca no rock de arena e "¡Dos!" é mais urgente e enérgico, "¡Tré!" (cujo nome é um óbvio trocadilho com o baterista Tré Cool) soa como uma colcha de retalhos ou sobras de estúdio, como se o que não tivesse se encaixado na proposta dos dois primeiros tivesse sido empurrado com a barriga para cá. Mesmo os seus dois singles "X-Kid" e a balada "The Forgotten" foram tão insossos que passaram em brancas nuvens. De relevante mesmo, dá para pinçar com boa vontade apenas "A Little Boy Named Train" e "8th Avenue Serenade", e olhe lá...

 11 '¡Uno!' (2012) 
Ainda que tenha conseguido uma façanha considerável (seu primeiro single "Oh Love" conseguiu a invejável proeza de estrear em primeiro lugar na parada da Billboard, tornando-se a terceira canção da história a atingir tal feito), "¡Uno!" no geral é bastante irregular, flertando o tempo inteiro com o pop rock como se quisessem deixar claro que o peso e a angústia dos trabalhos anteriores "American Idiot" e  "21st Century Breakdown" estavam para trás e que agora era hora de celebrar. Grande exemplo disso é a divertida "Kill The DJ", que soa quase como o Franz Ferdinand. Também merecem destaque o hit "Let Yourself Go" e "Rusty James", mas no geral as músicas carecem de personalidade, o que torna o resultado como um todo um pouco cansativo.

 10 '1039 Smoothed Out Slappy Hours' (1991) 
Lançado originalmente como "39/Smooth", foi rebatizado e relançado posteriormente quando o Green Day estourou com "Dookie", recebendo o enxerto de dois EP anteriores a esse trabalho, "Slappy" e "1000 Hours" (entendeu o porquê desse título escalafobético agora?). O único disco com o baterista John Kiffmeyer (aka Al Sobrante) é nitidamente bastante embrionário: percebe-se que Billie Joe ainda está lapidando tanto sua forma de compor quanto a maneira de impostar a voz; porém faixas divertidas como "At The Library", "Going to Pasalaqua", a ode à marijuana "Green Day" e a maravilhosa "I Was There" deixam claro o potencial do conjunto. Como curiosidade, temos um cover completamente avacalhado de "Knowledge", do Operation Ivy.

 9 '21st Century Breakdown' (2009) 
OK, "American Idiot" é um grande disco, ninguém discute, mas a verdade é que ele causou um efeito colateral no Green Day que foi fazer com que eles começassem a se levar mais a sério do que deveriam. Após um hiato de cinco anos (o maior que já tiveram entre um lançamento e outro), soltaram "21st Century Breakdown", disco dividido entre três atos e que tem como fio condutor o casal Christian e Gloria, que lidam com uma América devastada pela péssima gestão do 43º presidente, enquanto juntam forças para recomeçar a vida nesse novo século. Se por um lado ele foi muito bem sucedido (conquistou um Grammy, estreou em primeiro lugar nas paradas em 14 países e a faixa "Know Your Enemy" virou canção-tema da WWE - a luta-livre americana), por outro teve seu impacto reduzido por não apresentar nenhum avanço em comparação com seu brilhante antecessor. A produção polida demais e o excesso de faixas mais lentas e depressivas ("21 Guns", "Before the Lobotomy") também desagradou boa parte dos fãs das antigas. Se o já citado "American Idiot"não existisse, talvez "21st Century Breakdown" pudesse ser visto com outros olhos; porém, como isso não aconteceu, acabou sendo ofuscado por ele e passando batido.

 8 'Revolution Radio' (2016) 
Alardeado por boa parte da crítica especializada como se fosse um retorno ao tempo em que faziam canções mais rápidas e diretas (alguns mais exaltados chegaram ao cúmulo de dizer que estávamos diante de um novo "Dookie"!), mas a verdade é que não é para tanto: Apesar de os primeiros singles divulgados ("Bang Bang", forte crítica à cultura de armas enraizada nos EUA e a faixa-título) de fato causarem uma primeira impressão errônea por serem as mais enérgicas da bolachinha, o restante do material parece uma tentativa de remeter às pretensões rock-operísticas de "American Idiot", com letras contundentes, mas melodias nem tanto (como atestam as baladas "Outlaws", "Somewhere Now" e "Ordinary World"). É um bom trabalho, sem dúvida, mas sem novidades.

 7 '¡Dos!' (2012) 
Pouca gente por aqui sabe, mas em 2008 Bille Joe e Mike Dirnt fizeram um projeto paralelo chamado Foxboro Hot Tubs e lançaram um excelente e subestimado CD chamado "Stop Drop and Roll!", cujo som emanava o garage punk de grupos como The Hives e The Jam. Algum tempo depois, na época que "¡Dos!" foi lançado, Billie disse em diversas entrevistas que na verdade esse era o segundo álbum (ainda que não oficial) do FHT, e ouvindo-o, dá para entender o porquê da comparação: É um disco que soa como uma verdadeira ode à esbornia, como as faixas "Makeout Party", e "Fuck Time" deixam claro, embora ainda haja espaço para cantar sobre corações despedaçados em músicas como "Ashley", "Amy" e a divertidíssima "Lady Cobra". Sem dúvida um trabalho subestimado e que merece ser ouvido com mais atenção.

 6 'Nimrod' (1997) 
Se tem um trabalho do Green Day causador de celeuma entre os fãs é este aqui. Muitos admiraram a coragem de terem saído da zona de conforto e experimentarem um pouco mais; mas os fãs das antigas, óbvio, não assimilaram tão bem assim a mudança e começaram a acusá-los de vendidos. Claramente um disco de transição, "Nimrod" rompeu um pouco com o punk chicletudo que reinava soberano até então e deu início a algumas experimentações: É evidente que a pegada mais rasgada se faz presente como o mini hit "Nice Guys Finish Last" e a rapidíssima "Platypus (I Hate You)" atestam, porém o que realmente chama a atenção aqui é  o início da incorporação de novos elementos como surf music ("Last Ride In"), ska ("King For a Day", com o naipe de metais emprestado do No Doubt), a depressiva "Redundant" e a balada "Good Riddance (Time of Your Life)", que estourou em todo o mundo e se tornou para os americanos o mesmo que "A Estrada" do Cidade Negra para nós brasileiros, a trilha sonora escolhida por todo universitário para tocar quando recebe seu diploma. Igualmente corajoso e divertido.

 5 'Kerplunk' (1992) 
Considerado o favorito dos que acompanham a banda desde os seus primórdios, "Kerplunk" marca a estreia de Tré Cool na bateria e já mostra um avanço impressionante nas composições, bem mais lapidadas se comparado com o seu antecessor. Além de pequenas jóias que precisam ser descobertas pelos fãs mais novos, como "80" e "Android", temos aqui dois grandes hits que até hoje são presença constante nos shows: "2000 Light Years Away" e "Welcome to Paradise" (não, eu não estou louco, a música consta no "Dookie", porém a gravação original é esta aqui). Vale ressaltar que a versão em CD foi relançada pela Lookout Records (assim como aconteceu com o "39 Smooth") com o acréscimo das 4 músicas do EP "Sweet Children", e cujo grande atrativo o cover de "My Generation", do The Who.

 4 'Insomniac' (1995) 
Depois de disparar para o topo do mundo do rock com "Dookie" o Green Day resolveu adotar a velha máxima que "em time que está ganhando não se mexe" e fez poucas alterações para o seu sucessor. Um pouco mais agressivo e com letras mais densas e pessimistas que todo o material composto até então, "Insomniac" manteve a banda em alta, foi multiplatinado, rendeu diversos hits ("Geek Stink Breath", "Stuck With Me", "Brain Stew/ Jaded", "Walking Contradiction"), teve canção incluída na trilha sonora do desenho da Disney "Carros" ("Westbound Sign") e é um dos preferidos dos fãs. Talvez não seja tão consistente quanto "Dookie", mas ainda assim é ótimo no que se propõe.

 3 'Warning' (2000) 
Se o álbum anterior "Nimrod" causou desconforto, "Warning" quase pôs a carreira do Green Day em cheque, pois foi o primeiro trabalho desde "Dookie"a não ser disco de platina nos EUA. Porém, com o passar dos anos, ele foi melhor absorvido e hoje é considerado a pérola obscura da sua discografia. Muito mais tranquilo que tudo que fizeram até então, é um álbum descolado de canções simples fortemente influenciadas pela folk music, com uma sonoridade predominantemente acústica ("Warning", "Macy's Day Parade", "Minority") e mesmo nos momentos mais rápidos, a distorção é usada com moderação ("Waiting", "Church On Sunday" e a maravilhosa "Castaway"), além de ter até algumas experiências com naipe de metais ("Jackass"). Em uma palavra, surpreendente.

 2 'American Idiot' (2004) 
Vencedor do Grammy de melhor álbum de rock em 2004 e trabalho que carimbou seu passaporte para o Rock and Roll Hall of Fame, a ópera-rock "American Idiot" consegue ser atemporal ao mesmo tempo que é intrinsicamente ligado ao fatídico 11 de Setembro e suas consequencias na sociedade americana. Contando a história de um personagem chamado "Jesus of Suburbia", é um disco que transborda desilusão e audácia, com forte sátira social, além de ser uma analogia perfeita à própria banda, cuja resposta aos trabalhos anteriores deu a impressão que  estavam perdendo a relevância. Além de ter os hits "Boulevard of Broken Dreams", "Wake Me Up When September Ends", "Holiday", e a faixa-título, ainda foi o segundo Cd mais vendido do Green Day e ainda foi adaptado para a Broadway. Após esse texto,  ainda preciso ressaltar sua importância para o rock e o quanto ele é bom?

 1 'Dookie' (1994) 
OK, "Nevermind" do Nirvana foi o grande responsável pelo boom do rock alternativo nos anos 1990, entretanto não há como negar que "Dookie" foi quase tão essencial quanto para uma mudança radical em todo o cenário mainstream. Reintroduziu o punk rock para as massas e foi uma verdadeira fábrica de hits ("When I Come Around", "She", "Basket Case", "Longview", "Welcome to Paradise", além do hino gay friendly "Coming Clean") . Por sua inegável relevância, seu lugar não poderia ser outro. Simplesmente obrigatório!
Stone Temple Pilots: Do Pior Ao Melhor
Por Bruno Eduardo

O Stone Temple Pilots sempre foi uma banda muito particular no universo rock and roll. O grupo foi formado em 1985, seis anos antes da explosão convencional do grunge. E embora muitos pensem o contrário, eles não eram uma banda de Seattle. O grupo cresceu na ensolarada San Diego, e por conta de seu primeiro disco, eles foram imediatamente aglomerados ao gênero grunge. Tendo o vocalista Scott Weiland na linha de frente como figura polarizadora, o grupo ganhava forma no hard rock 70's pelas mãos dos irmãos DeLeo (o guitarrista Dean e o baixista Robert) e pelo baterista Eric Kretz. Após vender milhões de discos no mundo inteiro e emplacar diversos hits nos anos noventa, o grupo conseguiu sobreviver à personalidade auto-destrutiva de Weiland, lançando sete discos de estúdio. Infelizmente, o vocalista faleceu no fim do ano passado e a banda continua à procura de um substituto. Então, decidimos prestar nossa homenagem aos fãs no especial Stone Temple Pilots: Do Pior ao Melhor - avaliando toda a discografia da banda. 

Concordou com a lista? Discordou da ordem dos discos? Então deixe também as suas sugestões nos comentários e concorra já a uma versão em Vinil 180g do primeiro disco da banda, "Core", relançado em 2012.


 7 'High Rise' (2013)  
Após dispensar o vocalista Scott Weiland, o STP lançou este EP com cinco músicas trazendo a participação de Chester Bennington do Linkin Park nos vocais. O disco segue um padrão hard rock clássico bem no estilo da banda, principalmente em faixas mais pegadas como "Out Of Time" e "Same On The Inside". Mesmo funcionando bem no vocal de Chester, canções como "Black Heart" e "Tomorrow" evidenciam bastante a ausência de Weiland.

 6 'Stone Temple Pilots' (2010)  
O último disco do grupo com Scott Weiland traz pérolas do quilate de "Between The Lines". O álbum foi criado após anos de separação e traz Scott momentaneamente longe das drogas. As letras do disco foram inspiradas na morte do irmão de Scott e no seu divórcio. O disco foi muito bem aceito pelos fãs e alcançou o topo da Billboard, onde permaneceu por dois meses na posição número 1. Com este trabalho, o STP veio ao Brasil pela primeira vez em 2010 e retornou no ano seguinte para se apresentar no festival SWU. Outros destaques são "Hucleberry Crumble" e "First Kiss On Mars".


 5 '4.' (1999)  
Mesmo não vendendo tanto quando seus antecessores, este é um dos discos preferidos da maioria dos fãs. O quarto trabalho do STP é também o mais pesado da carreira e traz fortes influências do metal. O maior exemplo disso é a faixa "Down", escolhida como primeiro single. O tema do álbum é quase todo em cima da relação de Scott com a heroína. Inclusive no título do álbum - "Nº 4" é um termo utilizado para uma etapa de refinamento da droga. Curiosamente, é neste disco que encontramos uma das músicas mais belas e suaves da banda: "Sour Girl". Mesmo não conseguindo emplacar o mesmo sucesso dos outros álbuns, "Nº 4." retrata com honestidade o momento conturbado da banda.   

 4 'Shangri-La Dee Da' (2001)  
Mais centrados em canções leves e com boas melodias, o STP retornou com um trabalho mais ao estilo dos consagrados "Purple" e "Tiny Music". Para fazer este disco, a banda se trancou em uma mansão em Malibu e contou mais uma vez com a produção do consagrado Brendan O'Brien. A participação do produtor foi fundamental para que eles conseguissem resgatar a mesma sonoridade dos primeiros álbuns. Faixas como "Hollywood Bitch" e "Comapodem ser consideradas uma retomada em grande estilo ao "velho" Stone Temple Pilots. Embora seja um disco com várias músicas de potencial, o único single de Shangri-La Dee Da foi "Days Of Week", que inclusive ganhou um vídeo clipe.  

 3 'Tiny Music...' (1996)  
Considerado um dos principais discos do grupo, Tiny Music... Songs From The Vatican Gift Shop é porta de entrada para uma variedade de estilos que marcariam de vez a carreira da banda. Sucessos como "Big Bang Baby", "Lady Picture Show" e a arrasa-quarteirão "Trippin' On a Hole In A Paper Heart" ajudaram o disco a atingir mais de 1 milhão de cópias, além de sustentar de vez o STP entre os grandes nomes do rock alternativo. No entanto, o álbum não ganhou maior proporção popular pela falta de uma turnê mundial, já que Scott Weiland estava mais uma vez envolvido com drogas e processos judiciais.  

 2 'Core' (1992)  
O disco de estreia do Stone Temple Pilots é também o mais reconhecido entre fãs de rock do mundo inteiro. Certificado 8 vezes como disco de platina, Core traz uma lista considerável de hits, incluindo a fortíssima "Plush" - vencedora do Grammy na categoria melhor hard rock. Por ter sido lançado meses depois do sucesso do Pearl Jam, o STP foi erroneamente ligado às bandas de Seattle, principalmente ao grupo de Eddie Vedder. A referência ajudou na popularização do disco e fez da banda uma sensação da MTV - que rodou exaustivamente os clipes das músicas "Creep", "Wicked Garden", "Sex Type Thing", além da já citada "Plush". Mesmo com o enorme sucesso, a banda foi bastante criticada pela imprensa por fazer um som muito parecido com o Pearl Jam. Essas críticas incomodaram bastante o grupo, que mudou radicalmente a proposta nos discos posteriores.   

 1 'Purple' (1994)  
O melhor disco do Stone Temple Pilots nasceu na época em que a epidemia do grunge começava a se dissipar no mundo do rock. Com uma proposta mais rica em termos de textura sonora, o grupo chegava ao ápice criativo ao apresentar uma cartilha de hard, southern rock, violões acústicos e letras inspiradas. “Purple” foi um sucesso imediato e vendeu cerca de 5 milhões de cópias. O álbum chegou ao topo da Billboard americana, além da Austrália, e teve os cinco singles (“Big Empty”, “Vasoline”, “Interstare Love Song”, “Unglead” e “Pretty   Penny”) lançados nas primeiras posições das paradas de sucesso. Discaço!
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A discografia do The Cure avaliada na série "Do Pior Ao Melhor"
Por Luciano Cirne

Muita gente não sabe, mas em dezembro de 2016, mais precisamente no dia 18, fará 40 anos que um obscuro conjunto chamado Malice fez seu primeiro show. Envergonhados após sua apresentação tosca, logo em seguida mudaram o nome para "Easy Cure" e, pouco tempo depois, para The Cure, tornando-se uma das bandas mais influentes do rock alternativo e uma das que ajudaram, junto com o Joy Division, Bauhaus e Siouxsie and the Banshees, a definir a estética gótica (embora Robert Smith não goste muito dessa associação). Portanto, para homenageá-los, venho novamente prestar um serviço de utilidade pública às gerações de roqueiros que estão por vir, desta vez dissecando sua rica discografia. Antes de qualquer coisa, convém ressaltar que, assim como fiz na discografia comentada dos Ramones, este ranking baseia-se em opinião puramente pessoal, ok? Portanto, se você discorda, não precisa xingar minha mãe; apenas deixe seu comentário dizendo sua opinião, será um prazer! Ah, e também é bom frisar que excluí álbuns ao vivo desta lista, porém achei necessária a inclusão de uma coletânea; vocês entenderão o porquê disso ao lerem a resenha! No mais, vamos ao que interessa e divirtam-se!

 14 'Wild Mood Swings' (1996) 
Nove entre dez fãs do The Cure execram este disco unicamente por causa do primeiro single, "The 13th", uma salsa do latino doido que na verdade nem tem nada de tão radical assim (lembra o hit "Caterpillar", do álbum "The Top" em alguns momentos), mas que para o público que o conheceu através dos seus antecessores "Disintegration" e "Wish" ajudando a torna-los fenômenos de venda, foi um baque e tanto. Porém esse não foi o único problema. A fase era complicada: o baterista Boris Williams (sem dúvida o melhor que já tiveram) caiu fora ao final da turnê de "Wish" e o guitarrista Porl Thompson recebeu um daqueles convites considerados irrecusáveis para virar músico de apoio do Jimmy Page e Robert Plant (por sinal o convite veio no Hollywood Rock de 1996, onde ambos excursionaram juntos por RJ e SP e Jimmy, impressionado com a técnica de Porl, não pensou duas vezes), deixando Robert Smith e o guitarrista Perry Bamonte sozinhos para compor e fazer todos os arranjos. Provas da bagunça que imperou no processo de gravação foram o fato de vários bateristas terem gravado o álbum, pois Robert aproveitava as sessões de audições para gravar e depois usava o que julgava que tinha ficado melhor (Jason Cooper, o escolhido para ficar com as baquetas, tocou em 9 das 14 faixas) e de a gravadora ter pressionado para que a mixagem ficasse a cargo de terceiros, pois o álbum estava demorando muito a sair. Sem o controle, as coisas não ficaram exatamente como Robert Smith gostaria e o resultado disso foi um trabalho sem foco que atira em todas as direções.  Em alguns momentos, como na alegre "Mint Car" (espécie de "Friday I'm In Love" parte 2), a lindíssima "Jupiter Crash" e a forte "Want", o resultado é bastante satisfatório, mas não o bastante para salvá-lo do naufrágio como um todo.

 13 'The Cure' (2004) 
Quando escrevi na discografia comentada dos Ramones sobre o polêmico álbum "End of The Century", exemplifiquei o quanto uma escolha errada para a produção pode botar tudo a perder. Pois bem, temos aqui outro belo exemplo disso: Ross Robinson, famoso por seu trabalho com grupos barulhentos como Sepultura, Slipknot e Korn sempre foi muito fã da banda de Robert Smith e sonhava um dia adicioná-los ao seu currículo. Quando finalmente se esbarraram, Ross encheu tanto a paciência que eles acabaram cedendo. O problema é que ele parece saber muito bem lidar com bandas pesadas; mas claramente não tem a mesma desenvoltura na hora que precisa lapidar sons com tantas nuances quanto o The Cure. As músicas em si não são ruins, porém em vários instantes temos a incômoda impressão de que ele tentou deixá-los ainda mais angustiados e lamuriosos para facilitar a assimilação pela turma emo (que naquela época estava no auge), lembrando demais a malfadada parceria de Robert Smith com o Blink 182 um ano antes. Vale pela épica canção "The Promise", que encerra o disco, pela simpática pegada pop de "The End of the World" e pela alegre "Taking Off" mas, fora isso, não há nada de muito relevante. Ah, e também devo ressaltar que a capa é séria candidata a uma das mais feias da história do rock.

 12 'Bloodflowers' (2000) 
O grande problema de "Bloodflowers" é ser um trabalho pretensioso. Como foi concebido como a parte final de uma trilogia iniciada com o álbum "Pornography" e seguida por "Disintegration", a comparação com os mesmos torna-se inevitável e aí "Bloodflowers" perde de lavada. Tenta-se o tempo inteiro recriar a atmosfera densa e atormentada desses discos supracitados (talvez para apagar a decepção que o álbum anterior "Wild Mood Swings" causou nos fãs), mas na maior parte das vezes o resultado é um pouco cansativo, como se todas as faixas fossem uma imensa, lenta e triste canção emendada. Mesmo as músicas de maior destaque como "Out Of This World", "Maybe Someday" e a reflexiva "39" (composta às vésperas do aniversário de 39 anos - claro - de Robert Smith) passam uma incômoda sensação que estamos ouvindo uma banda que parece cover de si mesma, que tenta a todo custo soar como em "Pictures of You" (do já citado "Disintegration"). "Bloodflowers "é certamente bem feito e até agradável; no entanto, promete mais do que cumpre.

 11 'The Top' (1984) 
O "álbum difícil" do The Cure. O próprio Robert Smith já disse diversas vezes que não gostou do resultado final, o que é bastante sintomático. Todos os integrantes estavam enfiando o pé na jaca nas mais diversas substâncias (Robert Smith na cocaína, o tecladista Lol Torhurst na bebida, o baterista Andy Anderson no chá de cogumelos, e por aí vai). Para piorar, o clima  não era dos melhores, pois eles estavam a um passo de acabar: Robert na época também estava tocando guitarra no Siouxie and the Banshees e se sentia muito mais confortável ali pois, como não era a figura principal, não havia pressão sobre ele. O resultado desse ambiente tão louco e tumultuado foi um disco psicodélico, experimental e, obviamente, que não é fácil de assimilar. Temos os elementos árabes de "Wailing Wall", a psicodélica "Piggy In The Mirror", a angustiada "Bananafishbones", a furiosa "Shake Dog Shake", mas até nos momentos mais pop (como "The Caterpillar"), uma incômoda sensação de estranhamento se faz presente. Porém, se analisarmos por outro ângulo, talvez este seja o grande charme de "The Top": Há muito que merece uma audição mais atenta e precisa ser (re)descoberto.

 10 '4:13 Dream' (2008) 
Criminosamente ignorado pela crítica dita "especializada", "4:13 Dream" mostra o The Cure consistente como há muito não se (ou)via, graças talvez ao retorno do antigo guitarrista Porl Thompson, que deu um astral novo à banda (desde "Wish", de 1992, eles não soavam tão leves). A longa faixa de abertura "Underneath the Stars", climática,  repleta de nuances e que poderia muito bem estar no álbum supracitado, é grande exemplo de como estamos novamente diante de um conjunto inspirado. "Reasons Why", a canção mais pop do trabalho, também chama a atenção pois, ao mesmo tempo que tem uma melodia tão alegre, trata de um tema pesado (suicídio); "Freakshow" tem uma pegada funkeada que lembra demais "Hot Hot Hot", do disco "Kiss Me, Kiss Me, Kiss Me" e a lindíssima "This. Here And Now. With You" é uma daquelas canções de amor dilacerantes que só Robert Smith sabe compor. Ainda que seja nitidamente inferior aos seus clássicos álbuns, não faz feio numa eventual comparação. Cabe ressaltar que a ideia original do The Cure era que "4.13 Dream" fosse duplo, mas a gravadora achou que, nesses tempos de mp3 e pirataria virtual, isso poderia ser um suicídio comercial e exigiu que ele fosse lançado como CD simples, o que fez Robert  Smith limar as faixas "mais pesadas e sombrias"... Será que um dia elas serão lançadas? Tomara!

 9 'Seventeen Seconds' (1981) 
Temos em "Seventeen Seconds" o momento em que o The Cure começou a achar sua própria identidade, saindo aos poucos do pós-punk do álbum de estreia e começando a enveredar por caminhos mais tortuosos que iriam desaguar na obra-prima "Pornography" apenas dois anos depois. A mudança na formação (o baixista Michael Dempsey saiu e dois integrantes o substituíram: Simon Gallup assumiu o baixo e o tecladista Matthieu Hartley  foi adicionado) fez com que  o som ficasse  mais consistente e focado. Talvez uma forma de resumi-lo é compará-lo à sua arte do álbum. A capa é fria, metálica, minimalista e não passa com clareza uma ideia sobre o que ele poderia de fato ser, e o The Cure consegue transmitir todos esses elementos nas músicas. Grandes exemplos dessa guinada sonora são "Play For Today" e "A Forest", clássicos que até hoje figuram entre as favoritas dos fãs, são grandes exemplos dessa sonoridade soturna perfeita para curtir uma fossa num domingo cinzento e chuvoso, além de "At Night", inspirada numa obra de Franz Kafka com o mesmo nome e a lenta e depressiva "In Your House", que retrata com perfeição a proposta de tristeza e desolamento do álbum. Não é o tratado perfeito sobre perda que seu trabalho seguinte "Faith" conseguiu ser e nem a descida ao inferno de "Pornography", mas preparou o terreno com maestria para eles.

 8 'Japanese Whispers' (1983) 
Lembram quando eu disse no começo da matéria que iria mencionar uma coletânea? Pois bem, chegou a hora. O trabalho anterior "Pornography" foi uma obra-prima, mas que consumiu muito da banda psicologicamente. Noite após noite tocando músicas altamente depressivas somado ao consumo de drogas cada vez mais desenfreado fizeram com que o equilíbrio mental de todos se esgotasse e o clima interno se deteriorasse. A um ponto do colapso emocional, Robert Smith resolveu dar um tempo no The Cure, ficando mais de um ano sem falar com seus colegas de banda. Quando finalmente reestabeleceram contato, resolveram dar uma resposta aos que achavam que eles só sabiam fazer músicas negativas e pessimistas, lançando quatro singles sequencialmente, que algum tempo depois foram unidos em um só disco e lançados com o nome de "Japanese Whispers". Para quem os conheceu graças a discos depressivos como "Pornography" e "Faith", deve ter sido um choque vê-los cantando melodias ensolaradas com forte influência new wave como "Let's Go To Bed" e "The Walk" (que Robert Smith confessou envergonhado em sua biografia que "foi a única música que compus que minha mãe gostou") ou a jazzy "Lovecats", inspirada no desenho animado da Disney "Aristogatas", um dos filmes favoritos do vocalista. Leve, dançante e repleto de sintetizadores, "Japanese Whispers" é uma coletânea de singles, verdade, porém muito mais consistente e coesa que vários discos por aí.

 7 'Three Imaginary Boys' (1979) 
Antes de mais nada, convém esclarecer para quem não sabe que o disco de estreia do (na época trio) The Cure teve duas versões: A primeira, chamada "Three Imaginary Boys", saiu no velho continente e "Boys Don't Cry", na América. Além da capa e do título, quatro músicas foram alteradas: na versão americana, saem "Meat Hook", "Object", "It's Not You" e o cover torto do Jimi Hendrix "Foxy Lady" para entrarem os hits "Jumping Someone Else's Train", "Plastic Passion", "Killing An Arab" (inspirada no livro "O Estrangeiro", de Albert Camus e que rendeu inúmeras acusações à banda de preconceito - provavelmente de pessoas que não gostam de ler) e, obviamente, o clássico supremo "Boys Don't Cry" (essas 4 músicas haviam saído anteriormente como compactos na Europa, por isso essa decisão). Particularmente, prefiro a versão americana com todos os seus sucessos, mas independentemente de qual você escolher, ambas são garantia de diversão. Percebe-se que a sonoridade ainda é bastante embrionária e crua, embora a música "Three Imaginary Boys" já sinalizasse, ainda que timidamente, o caminho promissor que seguiriam a partir de então.

 6 'Faith' (1981) 
Capa cinza, guitarras sombrias, músicas com títulos sugestivos como "All Cats Are Grey" (não por acaso, uma das favoritas deste que vos escreve)... fica claro que "Faith" é sobre vazio, tristeza, nevoeiro, solidão,e a esperança cada vez menor. Com exceção das rápidas "Primary" (com dois baixos) e "Doubt", o que predomina são hinos lúgubres como "Funeral Party" e "Faith", que, com seus instrumentos em afinações graves e baterias hipnóticas, foram precursoras do rock gótico que tomou de assalto os anos 1980. Isso para não falar da já citada "All Cats Are Grey", que lembra muito o Nine Inch Nails da fase "Downward Spiral". Vale ressaltar que a versão de luxo lançada em 2005 tem a faixa bônus instrumental "Carnage Visors" que foi composta para ser a trilha sonora de um curta metragem de animação dirigido pelo irmão do baixista Simon Gallup, Ric, que nunca foi lançado em circuito comercial, mas serviu como ato inicial nos shows desta turnê, e que, com seus 27 minutos (!!!) é uma das músicas mais assustadoras que o The Cure já gravou, trilha sonora perfeita para um filme de terror. Não recomendo nem um pouco ouvi-la sozinho(a) numa noite chuvosa...

 5 'Wish' (1992) 
Primeiro e único álbum do The Cure que conseguiu a proeza de atingir o topo das paradas, graças em grande parte ao sucesso de "Friday I'm In Love" (muito possivelmente o mais feliz que Robert Smith conseguiu soar em toda sua discografia), que tocou incessantemente nas rádios e fez alguns fãs mais radicais torcerem o nariz e acusarem a banda de "fazer pop descartável". Bobagem: para cada música com apelo comercial, como a belíssima "High" ou a simpática "Letter to Elise" com seu teclado lembrando canções folclóricas japonesas, temos canções tristes e melancólicas como "From The Edge of The Deep Green Sea", "Apart", "To Wish Impossible Things" e, como eu não poderia deixar de citar, "Trust" (talvez a minha favorita da banda). Não é um disco predominantemente gótico, nem tão pop quanto parece, mas quase atingiu o equilíbrio perfeito entre estes extremos. Digo "quase" porque alguns anos antes o The Cure conseguiu fazê-lo com o magistral "Head On The Door", mas essa história fica mais para a frente...

 4 'Kiss Me, Kiss Me, Kiss Me' (1987) 
Temos aqui a prova cabal que Robert Smith é uma pessoa completamente bipolar. Quem mais seria capaz de compor algo tão baixo astral quanto "Pornography" e alguns anos depois escrever algo tão alegre e ensolarado quanto as músicas deste álbum? Tudo  aqui é berrante, colorido, glorioso e, sobretudo, exala criatividade. Ao longo das 18 músicas e dos seus 75 minutos (o LP é duplo), temos cítaras desvairadas em "If Only Tonight We Could Sleep", a melodia funkeada de "Hot Hot Hot!", naipe de metais em "Why Can't I Be You?', uma verdadeira aula de como usar o pedal de distorção Wah Wah com bom gosto e criatividade em "The Kiss", a agitada "How Beautiful You Are" (outra inspiração literária, desta vez do conto de Baudelaire "Ao Olhar dos Pobres") e, como se isso por si só não fosse o bastante, temos "Just Like Heaven", um dos maiores sucessos do conjunto e uma das mais lindas canções de amor de todos os tempos. Talvez o único problema de "Kiss Me.." seja o mesmo de 90% dos álbuns duplos: algumas faixas como a lenta e experimental "Snakepit" e "Like Cockatoos" não parecem se encaixar na proposta e soam um pouco deslocadas. Se um pouco dessa gordura fosse queimada, estaríamos diante de uma obra perfeita... mas esse pequenino defeito não diminui em absoluto sua importância e genialidade.

 3 'Pornography' (1982) 
Se existe um disco que eu jamais recomendaria para pessoas depressivas, é este. Se no trabalho anterior "Faith" tudo era cinza e nublado, aqui o buraco é bem mais embaixo. Tudo é desespero, loucura e sobretudo autodestruição. Muitos o consideram "dark", mas em minha modesta e humilde opinião, isso é uma simplificação: o termo "dark" sugere a dor, enquanto "Pornography" É a dor personificada. Afinal, ninguém abre um álbum com uma música ("One Hundred Years") cujo primeiro verso é "Não importa se todos nós morrermos" a troco de nada. É um disco tão difícil que a gravadora, quando recebeu o resultado final, pediu para que ao menos dessem uma polida na faixa "The Hanging Garden", a única em que viam potencial para as rádios, para torná-la mais acessível (quase deu certo: a música chegou ao razoável 32º lugar na parada britânica), mas essa não era a preocupação de Robert Smith. Ele queria isso sim que seu trabalho fosse reconhecido como uma declaração artística séria e mostrar ao mundo que ele era um compositor capaz de coisas mais profundas que "Boys Don't Cry". Nesse ponto, podemos dizer que sem sombra de dúvida que sua pretensão foi bem sucedida: Canções sombrias como "A Short Term Effect" e "Cold" (ambas sobre o desejo de Robert de ser enterrado) e "A Strange Day", onde narra sua visão particular de como seria o fim do mundo, soam mais maduras que qualquer coisa que o The Cure havia gravado até então. Igualmente bonito e incômodo.

 2 'Disintegration' (1989) 
Após uma sequência de três álbuns mais alto astral ("Japanese Whispers", "Head On The Door" e "Kiss Me, Kiss Me, Kiss Me"), os demônios internos de Robert Smith voltaram a incomodá-lo e ele resolveu exorcizá-los com "Disintegration". Porém, ao contrário do que fez em "Pornography", aqui ele nos brinda com uma melancolia sutil, como se ao mesmo tempo em que demonstra tristeza e angústia com o estado das coisas, tente mostrar que bem lá no fundo, havia esperança. A prova mais categórica disso é a ordem das músicas: o disco começa com a fúnebre "Plainsong", repleta de sintetizadores e logo em seguida emenda com  a suave e acessível (apesar dos seus mais de 7 minutos) "Pictures of You". Depois nos dá a arrastada "Closedown", onde lamenta não ter amor no coração, para imediatamente após virar a mesa com "Lovesong", uma singela e tocante homenagem à sua esposa Mary Poole. Temos também "Lullaby", trilha sonora perfeita para um pesadelo, "Fascination Street" com o seu baixo pulsante, a épica e climática "The Same Deep Water As You", até encerrar com o jogo de palavras soturno de "Untitled" este que é sem dúvida um dos grandes álbuns dos anos 1980.

 1 'Head On The Door' (1985) 
Perfeita junção entre canções pop e temas instrospectivos, "Head On The Door" foi o álbum responsável por tornar o The Cure o sucesso mundial é hoje, e não sem motivos. Afinal, é uma verdadeira coletânea de hits: "In Between Days" (que poderia muito bem ter sido composta pelo New Order), "Close To Me" e "A Night Like This" são presenças obrigatórias em quaisquer shows da banda desde então. Além disso, temos as influências orientais em "Kyoto Song", flamencas em "The Blood" (com direito até a castanholas) e a longa introdução cheia de nuances de "Push", que dão ao The Cure uma profundidade e riqueza nos arranjos inédita até aquele momento. Se você só conhece a banda pelos seus sucessos radiofônicos e não sabe por onde começar, este aqui é o cartão de apresentação certo. Não é depressivo demais a ponto de fazer você querer cortar os pulsos, mas também não é feliz a ponto de parecer bobo ou descartável. Verdadeira pérola atemporal!
Foto: Ilustrativa
A discografia do Ramones avaliada na série "Do Pior Ao Melhor"
Por Luciano Cirne

Parece até que foi ontem, não? Entretanto, no dia 6 de agosto de 2016, completam 20 anos que os Ramones encerraram oficialmente suas atividades. Foi nesta data que tocaram ao vivo pela última vez na Califórnia, em um show que contou com as ilustres presenças do Soundgarden, Rancid, Eddie Vedder e, claro, da lenda Lemmy Kilmister (tocando o hino do Motörhead "R.A.M.O.N.E.S."!). Portanto, para homenageá-los, resolvi dissecar sua extensa discografia em um trabalho de utilidade pública para que as próximas gerações de roqueiros que estão por vir saibam por onde começar caso queiram enveredar pelo fabuloso mundo desta banda que deu o pontapé inicial nesta maravilha sonora que é o punk rock. Lembrando que essa lista é opinião puramente pessoal, ok? Se você discorda, por favor, deixe um comentário dizendo a sua ordem de preferência, vou adorar saber! E também é bom frisar que citei somente os álbuns de estúdio, certo? Dito isso, vamos cortar a lenga lenga e partir para o que interessa. 

 14 'Subterranean Jungle' (1983) 
Apesar de conter os hinos "Psycho Therapy" e "Outsider", além da furiosa "Highest Trails Above", no geral esse é o trabalho menos inspirado dos Ramones. O momento da banda era ruim: Marky lutava contra o alcoolismo (seu problema com a bebida causou tantos transtornos que acabou sendo expulso ainda durante as gravações, sendo as faixas restantes finalizadas por Billy Rogers) e Johnny quase passou dessa para melhor ao se envolver numa briga e sofrer uma fratura no crânio que necessitou de uma complicada cirurgia de 4 horas para reparação. O resultado desse ambiente é um disco nitidamente sem foco, com dois covers ("Little Bit O'Soul" e "Time Has Come Today") obviamente encaixados para encher linguiça e várias canções fraquíssimas como "Somebody Like Me", tão idêntica a "Blitzkrieg Bop" que chega a constranger.


 13 'Halfway To Sanity' (1987) 
Só coloquei esse disco na penúltima colocação porque, enquanto no já citado "Subterranean Jungle" consegui pinçar apenas três sons dignos de nota, aqui pelo menos consegui quatro: "Bop Till You Drop", "I Know Better Now" (que foi composta pelo baterista Richie), "I'm Not Jesus" (talvez a música dos Ramones que menos combine com a banda em sua extensa discografia) e o hit "I Wanna Live". De resto, apenas um punhado de canções pouco consistentes, e, como curiosidades, a participação de Debbie Harry (vocalista do Blondie) em "Go Lil' Camaro Go" e "Bye Bye Baby" que, com seus 4 minutos e 33 segundos, é a maior música que gravaram.


 12 'End Of The Century' (1980) 
Esse até poderia estar numa colocação melhor, se não fosse pela mão pesada do produtor Phil Spector. Metódico e perfeccionista, ele era exatamente a antítese do que o som simples e sem firula dos Ramones pedia, e isso inevitavelmente gerou um ambiente tumultuado e repleto de atritos: Além de ter corrido atrás do baixista Dee Dee com um revólver (na sua biografia, Dee Dee diz que ficou de saco tão cheio do Phil que simplesmente não deu mais as caras no estúdio. Tanto é que ele morreu dizendo desconhecer quem gravou as músicas em seu lugar, uma vez que os músicos de estúdio não foram creditados), de forçar Johnny a repetir mais de 50 vezes a introdução de "Rock N' Roll High School" para depois escolher a que ficou melhor, ainda encheu os arranjos com saxofones e teclados que fizeram vários fãs torcerem o nariz. Mesmo assim pauladas como "I'm Affected", "This Ain't Havana", "Do You Remember Rock N' Roll Radio?" e, claro, "Rock N' Roll High School" tornam esse disco obrigatório.


 11 'Animal Boy' (1986) 
Mais um caso de como um produtor mal escolhido pode botar quase tudo a perder. Desta vez o "culpado" foi Jean Beauvoir, da infame banda punk Plasmatics, que na ânsia de modernizar o som dos Ramones (como se eles precisassem disso) e aproximá-lo da onda new wave que dominava aqueles tempos, encheu o disco de sintetizadores e de teclados de gosto duvidoso. Funciona em alguns momentos (caso da bela "My Brain Is Hanging Upside Down", que trata de uma polêmica visita que o ex-presidente dos EUA Ronald Reagan fez a um cemitério alemão para homenagear nazistas mortos na Segunda Guerra Mundial e que foi lançada anteriormente em single com o título de "Bonzo Goes to Bitburg". Porém, a pedido de Johnny, notório republicano e conservador, o nome foi alterado), mas em outros beira a cafonice (como em "Something to Believe In", que pelo menos ganhou um hilário videoclipe). Vale também pelas faixas "Somebody Put Something In My Drink", "Eat That Rat", "Love Kills" (composta originalmente para a trilha sonora do filme "Sid e Nancy" mas que sabe-se lá porquê, acabou de ficando de fora na última hora) e, obviamente, pela faixa-título.


 10 'Acid Eaters' (1993) 
Fiquei em dúvida se deveria incluir o álbum de covers deles nesta lista, mas na última hora achei que não tinha como deixa-lo de fora (mas se até o allmusic.com o conta como parte de sua discografia oficial, por não deveríamos fazê-lo também?). Aposto que muitos fãs devem estar indignados por ter colocado essa obra a frente de algumas consideradas mais importantes, e indagando porque fiz isso, certo? Acalmem-se, a resposta é simples: Quando penso em Ramones, duas palavras invariavelmente surgem em minha mente, despretensão e diversão. E essas duas palavras mágicas definem com precisão o que "Acid Eaters" é. Sem contar que não tem como não gostar do repertório escolhido (The Who, Bob Dylan, Beach Boys, Rolling Stones, Creedence Clearwater Revival, etc), não é mesmo? Só pérolas! Rock simples, direto e sem frescura como deve ser.


 9 'Pleasant Dreams' (1981) 
O trabalho anterior ("End of The Century") foi um passo megalomaníaco e ambicioso que não deu o resultado esperado. Joey, Johnny e cia não só não conseguiram estourar nas paradas de sucesso mundialmente como ainda perderam alguns fãs dos primórdios com a guinada sonora que deram. Portanto decidiu-se que o melhor a fazer era voltar ao básico, o que não poderia ter sido mais acertado. Ainda que às vezes pareça um disco um pouco sem foco, que o clima no geral seja de ressaca, e que a produção limpa demais de Graham Gouldman (da banda 10cc, aquela da xarope "I'm Not In Love") tenha deixado as músicas sem punch, qualquer pessoa que tenha um mínimo de apreço por rock e punk se emociona quando ouve os primeiros acordes de faixas como "We Want the Airwaves", "You Sound Like You're Sick", da bela balada "Don't Go" e do clássico "The KKK Took My Baby Away"(que, reza a lenda, é uma alfinetada de Joey endereçada ao guitarrista Johnny, que roubou a namorada dele e depois acabou casando com ela, o que fez com que, daí em diante, cortassem relações.).


 8 'Brain Drain' (1989) 
Na minha humilde e modesta opinião, talvez seja o disco mais subestimado da banda. Concordo que "Pet Sematary" há muito já torrou o saco, mas "Zero Zero UFO", "Don't Bust My Chops", "I Believe in Miracles", "Merry Christmas (I Don't Wanna Fight Tonight)" e a porrada na orelha "Ignorance is Bliss" por si só valem a compra. Importante ressaltar que "Brain Drain" marca o retorno de Marky às baquetas (Ritchie havia pedido as contas por achar que estava sendo sacaneado na divisão de lucros) e a saída do baixista Dee Dee, que pirou na batatinha e decidiu virar rapper (!!!) por achar que o punk perdera o sentido, pois não mais retratava a realidade das ruas como o rap passou a fazer, lançando posteriormente "Standing In The Spotlight", considerado por 9 entre 10 críticos de música que se prezam um dos piores discos de todos os tempos.


 7 'Mondo Bizarro' (1992) 
A entrada do jovem CJ no baixo deu uma rejuvenescida nos Ramones, o que provavelmente colaborou para que "Mondo Bizarro" soasse enérgico como há tempos não se (ou)via. Pode até soar como cover de si mesmo em alguns momentos (grande exemplo disso é "Touring", que parece "Rock N' Roll High School" com uma letra diferente), mas para cada pequeno deslize, temos petardos como "Strenght to Endure", "Main Man", "Poison Heart" (todas essas composições do ex-baixista Dee Dee, que as vendeu aos Ramones e depois disse ter sido "roubado" por eles, fato nunca comprovado) e "Anxiety", isso sem falar na hilária "Cabbies on Crack" (baseada em um episódio verídico envolvendo Joey Ramone e um taxista e com solo de guitarra do Vernon Reid, do também nova iorquino Living Colour) e o maravilhoso cover de "Take It As It Comes", do The Doors.


 6 'Adios Amigos' (1995) 
Para um álbum que era abertamente um canto do cisne, "Adiós, Amigos" soa o exato oposto. Apesar de conter as melancólicas "She Talks to Rainbows" e "Life's a Gas" (essa última composta assim que Joey descobriu que estava com o câncer linfático que, apenas alguns anos depois, fez com que ele desencarnasse) o clima geral é de festa, como se quisessem terminar por cima e como se fosse um presente para os fãs. Maior exemplo é a faixa de abertura, o correto cover de "I Don't Wanna Grow Up", do Tom Waits, que soa quase que como uma autoparódia. Temos ainda o cover de "The Crusher" (que muita gente não sabe, mas foi gravada originalmente por Dee Dee Ramone em seu pavoroso álbum de rap citado anteriormente - e talvez seja a única música decente ali), o rock n' roll rasgado de "Scattergun" e as divertidas "Got A Lot To Say", "Have a Nice Day" e "Cretin Family", além de a canção-tema do Homem-Aranha, faixa-bônus escondida que só saiu nas primeiras tiragens da versão americana. CJ canta em quatro faixas, muito provavelmente para poupar Joey


 5 'Too Tough To Die' (1984) 
O trabalho anterior ("Subterranean Jungle") quase fez com que os Ramones encerrassem mais cedo suas atividades, porém a entrada do novo baterista Richie e a acertada escolha de Tommy Erdelyi na produção (a.k.a Tommy Ramone, o baterista da fase áurea da banda) fizeram com que entrassem novamente nos eixos e reencontrassem o caminho do bom e velho punk rock, caso de "Mama's Boy", "Wart Hog", "Danger Zone", "Chasing the Night" e da insana "Endless Vacation", embora também haja espaço para momentos radiofônicos, como "Howling At the Moon". Vale destacar que tenho um carinho todo especial por "Too Tough To Die" pois a primeira camisa de banda de rock que comprei foi uma com a capa deste disco estampada, que usei até virar uma peneira...


 4 'Road To Ruin' (1978) 
A partir daqui é covardia. TODOS os quatro primeiros álbuns são perfeitos! "I Just Wanna Have Something to Do", "She's The One", "Don't Come Close", "I Wanna Be Sedated" - que mais alguém pode querer? Ah, e "Road to Ruin" marca também a estreia (com o pé direito) da primeira passagem de Marky na bateria, pois Tommy não aguentava mais as extensas turnês e nem segurar a onda nas constantes discussões que os demais integrantes, todos geniosos, tinham constantemente. Como curiosidade, temos a balada "Questioningly", que foi escrita pelo baixista Dee Dee apenas porque ele queria provar à sua mãe que era capaz de fazer uma música romântica.


 3 'Leave Home' (1977) 
Sinceramente fica até difícil fazer quaisquer comentários. Digamos apenas que, se você não gosta de "Leave Home" e / ou nem entende como ele pode estar na terceira posição, então você não gosta de rock, fato. Muito mais lapidado que o seminal - porém tosco - disco de estreia, é difícil até citar seus pontos altos, uma vez que ele é bastante coeso e homogêneo: "Gimme Gimme Shock Treatment", "Commando", "Swallow My Pride", "Suzy Is a Headbanger", "You're Gonna Kill That Girl", "Glad To See You Go", o cover de "Califórnia Sun" (da banda Rivieras, que muita gente até hoje acredita ser dos Ramones) e claro, o hino "Pinhead", inspirado num polêmico filme de terror de 1932 chamado "Freaks", que usou pessoas deformadas reais no elenco e de onde foi tirada a icônica frase "Gabba Gabba Hey" (na verdade, isso é uma corruptela da expressão "Gobble Gobble", forma como os personagens na película saudavam uns aos outros)... tá bom ou quer mais?


 2 'Ramones' (1976) 
O disco que mudou para sempre o mundo do rock, mostrando como menos pode ser mais. Simples, rápido (14 músicas em 28 minutos), uma produção suja e tosca, a estreia do quarteto nova-iorquino imortalizou o brado "Hey Ho, Let's Go". Foi o marco zero do movimento punk, tornou casacos de couro e jeans rasgadas uniformes para toda uma geração e que provou como basta três acordes para compor pérolas como "Chainsaw", "Today Your Love, Tomorrow The World", "Judy Is a Punk", "Havana Affair", "Listen To My Heart", "Loudmouth", "Beat on The Brat" e, claro, "Blitzkrieg Bop" (nossa, citei praticamente o álbum inteiro!). Em uma só palavra: fundamental.


 1 'Rocket To Russia' (1977) 
Apesar de sua estreia ser um clássico atemporal, foi aqui em "Rocket to Russia" que a fórmula dos Ramones atingiu seu ponto ideal. Nenhum outro trabalho conseguiu captar com tamanha perfeição e energia sua mistura de surf music dos anos 50 e 60, garage rock e pop. Não existe alguém que tenha um mínimo de apreço por punk que não conheça "Cretin Hop", "Rockaway Beach", "I Don't Care", "Sheena Is a Punk Rocker", "Teenage Lobotomy", "Ramona" e os covers de "Do You Wanna Dance?" (do Johnny Rivers) e "Surfin' Bird" (do Trashmen). Verdadeiro manual de como fazer um bom disco de rock n' roll!