ROCKONBOARD NEWS

Mostrando postagens com marcador Resenhas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Resenhas. Mostrar todas as postagens
Foto: Divulgação
Linkin Park apostou no pop comercial em seu novo disco, 'One More Light'
LINKIN PARK
"One More Light"
Warner Bros Records; 2017
Por Bruno Eduardo


Quando falamos de Linkin Park, a primeira coisa que vem à cabeça é o som fundido de guitarras pesadas, pianos e vocais rap que conquistou o planeta nos megahits "In The End", "Crawling" e "Faint". No entanto, quem acompanha a banda de perto sabe que eles não se prendem muito a um estilo e costumam se arriscar em outras trincheiras - do eletrônico ao hip hop. Ainda assim, é bom adiantar que 'One More Light' não reserva nada daquela banda visceral que você conheceu um dia. 

Em entrevista exclusiva ao Rock On Board, o guitarrista Brad Delson já tinha antecipado que o novo disco seguiria um caminho diferente do que estávamos acostumados, e, que ele seria um reflexo do que é a banda nos dias de hoje. Aliás, o Linkin Park sempre gostou de sugerir novas direções musicais ao mercado e nunca decepcionou nas vendas, o que garante ainda mais essa moral de fazer o que der na telha. Só que diferentemente do que fizeram em 'A Thousand Suns' (2010) - esse sim, um disco arriscado, pela sonoridade quase experimental - a banda resolveu abandonar as guitarras para fincar sua bandeira no pop mercadológico, incluindo no pacote alguns convidados "escolhidos a dedo", como a cantora Kiiara e dois nomes do rap e hip hop da atualidade, Pusha T e Stormzy. 

No entanto, sem desmerecer a qualidade inquestionável do grupo em produzir boas canções pop, a impressão que fica ao ouvir este álbum é que eles poderiam ser facilmente confundidos com qualquer um desses artistas que invadem o mercado da música com suas canções feitas apenas para entrar nas programações comerciais. Tanto que para escrever "Heavy", eles se juntaram a Justin Tranter e Julia Michaels, responsáveis ​​por singles de sucesso de artistas como Demi Lovato, Selena Gomez e Jason Derulo. Com isso, não é exagero dizer que 'One More Light' é um disco pop simplório e  que corre o risco de ser facilmente esquecido. 

"Nobody Can Save Me", que abre o disco não nega a capacidade do grupo em criar melodias realmente boas, principalmente amparado na ótima performance de Chester Bennington. O mesmo acontece em "Sorry For Now" (dessa vez com Shinoda dando as cartas). Mas o fato é que as músicas parecem todas iguais, já que não há qualquer inclusão de elementos marcantes - característica essa, que fez do Linkin Park uma peça diferenciada no monótono rock mainstream dos anos 2000. O álbum realmente carece muito da energia latente que o grupo costuma mostrar em seus shows. Não há gritos selvagens de Chester Bennington, nem os riffs graves de Brad Delson. Até o DJ Hahn desaparece sob um brilho de estúdio texturizado. O mais próximo que eles chegam do "feeling linkin park de ser" é em "Talking to Myself", comandada pela bateria viva de Rob Bourdon e que tem algumas pitadas de Brad Delson. De resto, 'One More Light' se preocupa apenas em realizar canções modelo para o topo das paradas de sucesso ("Battle Symphony" e "Invisible") e confissões sinceras ("Sorry for Now" e "Halfway Right") que acabam no fim das contas soando como um mix de The Chainsmokers com Twenty One Pilots.

Eu sei, é duro criticar uma grande banda por tentar fazer algo diferente. E antes de qualquer questionamento, o problema não é ser pop e não ser mais aquela mesma banda que se tornou fenômeno de vendas no início do século. O tempo passa e é natural - e até mesmo saudável - que o artista seja honesto com a sua obra. Ninguém quer se tornar cover de si próprio. Mas a questão aqui, é que essa nova fase não adiciona nada de importante ao legado artístico do grupo, e acaba soando como uma aventura de momento. E mesmo para aqueles que defendem o disco, por ele ser um conjunto de canções pop muito bem feitas, digo que há músicas pop muito melhores em outros discos do Linkin Park. Faltou o algo mais.
Pato Fu completa 25 anos de carreira e ganha disco tributo
UM TRIBUTO AO PATO FU
"O Mundo Ainda Não Está Pronto"
Independente; 2017
Por Bruno Eduardo


Uma das bandas mais importantes do rock nacional está completando 25 anos de estrada. O Pato Fu - que já foi considerado pela conceituada revista Time como uma das dez melhores bandas não americanas do mundo - acaba de ter sua obra revisitada de forma justa em 'O Mundo Ainda Não Está Pronto'. Trinta bandas independentes se reuniram para prestar essa homenagem ao grupo mineiro, com versões instigantes, escolhidas de forma livre pelos artistas que participaram deste projeto. Com isso, a coletânea une de forma muito bem acabada um conjunto de canções improváveis e que mantém a mesma liberdade artística que marcou a carreira da banda formada por Fernanda Takai, John Ulhoa e Ricardo Koctus. 

Nesta coletânea bem sacada, é possível encontrar alguns hits óbvios e bem interpretados, como a versão psicodélica de "Sobre O Tempo" pelas mãos da banda carioca The Outs, "Pinga" - num ritmo reggae acústico do João Perreka e os Alambiques - e "Agridoce" no pop rock dos Estranhos Românticos. O mesmo acontece com "Depois", que ganhou da galera do Serapicos uma das melhores roupagens sonoras do tributo. No entanto, os momentos mais legais deste 'O Mundo Ainda Não Está Pronto' fica reservado principalmente para quem fugiu do roteiro datado, proporcionando assim, novos atrativos à canções antigas. 

Em "Isopor", por exemplo, Gilber T e os Latinos Dançantes utilizam vocais cheios de efeitos espaciais e remetem aos Mutantes, principal influência do Pato Fu. Há também quem escolheu por mostrar a banda mineira em versão rock vitaminado, cheio de guitarras e distorção, como a galera do Floreosso em "Made in Japan" e a banda Vênus Café, que fez de "Me Explica", um hard rock dos bons. Já o pessoal do Dum Brothers relembrou - em ótima performance - uma das melhores canções do aclamadíssimo 'Ruído Rosa' ("2 malucos"). Destaque também para o Molodoys com "Eu Sou o Umbigo do Mundo", Djamblê e sua "Água" com toques de Tim Maia e a estranhíssima execução de "Menti Pra Você Mas Foi Sem Querer" do Felappi.

'O Mundo Ainda Não está Pronto' é uma releitura fundamental de uma banda que mesmo quando surfou em altas ondas do mainstream, nunca perdeu sua essência instintiva. Talvez por isso, é difícil desprezar uma ou outra versão deste tributo, já que levando-se em consideração toda a obra do Pato Fu, qualquer transpiração artística desse cenário independente acaba soando de alguma forma honesta com o que eles sempre se propuseram a fazer. Essencial!
Foto: Divulgação
Com shows marcados no Brasil, Deep Purple sai do roteiro em seu novo disco
DEEP PURPLE
"Infinite"
EarMusic; 2017
Por Gustavo Canine


O Deep Purple, grande dinossauro do rock, chega ao seu vigésimo disco de carreira e pode estar encerrando suas atividades de palco nessa nova turnê que chega ao Brasil em outubro. Como qualquer apreciador de bandas, principalmente da galera dos 70 e 80, ter o privilégio de ver um grupo que surgiu no fim dos anos sessenta ainda em atividade lançando coisas novas é algo que aumenta ainda mais o respeito. 

No entanto, melhor avisar logo: é bem difícil para um ouvinte das antigas resumir 'Infinite'. Não pela qualidade musical, mas pela falta de qualquer identificação com o estilo da banda. Pegando como referência trabalhos mais recentes, como os ótimos 'Bananas' (2003) e 'Rapture Of The Deep' (2005), fica notório que este é certamente o disco que mais se distancia da sonoridade que consagrou a banda nos anos setenta.

Logo na primeira faixa, já é possível notar um peso temático que foge bastante do Deep Purple tradicional. "Time For Bedlam", traz um início sinistro, remetendo às vagas memórias do hospital de Bedlam, que foi o primeiro hospital psiquiátrico do mundo. As duas seguintes ("Hip Boots" e "All I Got Is You") são ainda mais diferentes. O fato das três primeiras músicas seguirem por caminhos completamente diferenciados acaba evidenciando que o álbum não possui uma direção comum. Mas ele é garantido na unha por ótimas melodias e pela qualidade musical inquestionável da banda. 

Agora, o que não muda de jeito nenhum é a capacidade vocal de Ian Gillan. Mesmo aos 71 anos de idade, ele trata sua voz com muito cuidado e mantém um estilo mais conservador neste álbum. Ainda assim, é possível ouvir um de seus gritos agudos clássicos na faixa "Get Me Outta Here". Já em "The Surprising", a banda surpreende ao percorrer por um caminho completamente progressivo - lembrando muito a banda holandesa, Focus. Mesmo assim, é possível encontrar o estilo sonoro que marcou o Deep Purple em "Birds Of Prey" - mesmo que haja uma inclusão moderna nas vozes de Gillan. O disco revela ainda um espaço para o blues com "Roadhouse Blues".

'Infinite' é um álbum baseado em ideias modernas e garantido pela qualidade musical inquestionável dessa banda que ultrapassa cinco décadas de serviço honesto ao rock. Mesmo assim é uma faca de dois gumes. Certamente vai agradar os mais ecléticos e torcer o bico de alguns fãs mais tradicionais. É aquele disco típico do "ame ou odeie". Bom... Eu amei. E você?
Foto: Divulgação
Após seis anos, Incubus está de volta com seu oitavo disco de inéditas
INCUBUS
"8"
Island Records; 2017
Por Bruno Eduardo


Sempre foi uma árdua tarefa tentar definir o som do Incubus. E deve ser ainda mais complicado para os fãs e críticos conseguirem avaliar o novo disco da banda de forma unânime. Mas é fácil demarcar alguns territórios em 8, seu novo conjunto de inéditas desde 2011. Mesmo que tenha sido produzido por Skrillex, este não é um disco pontuado por aventuras sonoras marcantes. Dessa vez, o Incubus reaparece perfeitamente encaixado no seu tempo, e soa pela primeira vez como uma banda de rock alternativo, veterana - devidamente consciente de sua atual fase. Talvez por isso, o grupo tenha optado por canções mais discretas, sem muitos efeitos ou alongamentos instrumentais. A capa do disco segue o mesmo caminho, sem rodeios: um "8" apenas. Não precisa de muito mais que isso.

De todo modo, você consegue encontrar várias cápsulas de nostalgia durante a audição íntegra do álbum, mostrando que sim, eles são capazes de fazer coisas tão significativas como nos áureos tempos. Só que agora a vibe é outra. "No Fun",  por exemplo, não é só uma das melhores canções de 8, como muitos fãs vem cantando por aí. A faixa entraria fácil numa compilação recente da carreira do grupo. Ela possui todo peso e melodia que marcou o petardo Morning View, lançado em 2001. Para ter uma ideia da coisa, a sonoridade da guitarra de Mike Einziger nesta música é algo não visto há alguns bons anos. A sequencia com "Nimble Bastard" causa a falsa impressão de um disco recheado de rocks. Infelizmente não. Mesmo assim, é um bela entrada. 

"State Of The Art" é outra que não foge o roteiro "Incubus de ser". Ela é a cara da banda - ótimo vocal, melodias esparsas e refrão para cantar nos shows. "Glitterbomb" também, mas com uma atenção maior ao peso e habilidades de Brandon Boyd, que ainda passeia como poucos entre os fraseados suaves e o alcance de notas surpreendentemente altas.

O maior acerto do Incubus neste novo álbum foi deixar que as coisas soassem naturalmente instintivas. Isso acabou de alguma forma fazendo de 8, um conjunto coeso de canções, que se atraem até nos momentos mais estranhos. "When I Became A Man", por exemplo, soa como uma introdução bem humorada para a sonoridade crescente de "Familiar Faces". "É hora de sair da hibernação", suplica Brandon. Um pouco nostálgica (com direito a som de conexão via modem), "Love In A Time Of Surveillance" resgata um pouco a sonoridade noventista que deu base ao grupo nos melhores momentos da carreira. Já a faceta psicodélica do quinteto vem devidamente representada na instrumental "Make No Sound In The Digital Forest", que leva muito o estilo progressivo que eles adotaram na turnê do disco A Crow Left Of The Murderer.

Como todos os fãs já devem saber, 8 não representa uma guinada musical na carreira do Incubus. Ele apenas representa uma banda veterana de rock alternativo capaz de fazer músicas que soem únicas e coerentes com sua discografia. Em 8, o grupo mostra consciência de seus feitos e de sua fase atual, com um disco que só poderia ser feito por uma banda no planeta: eles mesmos.
Foto: Francisco Cepeda
Jonathan Davis em ação durante o show em São Paulo
Por Eduardo Abreu

Parece até que foi ontem, mas o Korn já é uma banda veterana. São os últimos bastiões do nu metal, um subgênero que viveu dias de glória no fim dos anos 1990, gerando assombrosas vendagens de discos. O tempo foi cruel com o estilo e seus outros famosos representantes foram abandonados à irrelevância.

Com um disco novo embaixo do braço, o grupo desembarcou no Brasil com farto espaço nas editorias de entretenimento. E a razão não era 'The Serenity of Suffering', seu décimo-segundo álbum em 24 anos de carreira, mas um fato bastante inusitado: a presença de um moleque de 12 anos integrando sua tão conhecida e sólida formação. Aumentou ainda mais o frisson pelo fato do menino, Tye, ser filho de Rob Trujillo, baixista do Metallica e ex-Ozzy Osbourne e Suicidal Tendencies. A salada estava posta.

Crianças não combinam com bandas de rock. Ponto. Pior ainsa se a banda em questão segue uma vertente mais pesada, cantando sobre temas sombrios que muitas vezes envolvem maldades perpetradas contra crianças – não se trata de apologia, pelo contrário, mas esse fato sozinho já aumenta a estranheza.

Os fãs não deixaram de prestigiar o grupo por conta da ausência temporária de Reginald Arvizu. Três mil deles, ou mais, ocuparam a maior parte desse lugar estranho chamado Espaço das Américas, com seu salão amplo e teto direito baixo que parece perfeito para festas de formatura. 

Muitos aficionados pela banda seguem a moda ditada por eles, de tranças e dreadlocks nos cabelos, além dos indefectíveis agasalhos esportivos sempre bem largos. Não é exatamente o público de outros shows de rock pesado e surpreende que o nu metal, à essa altura, ainda tenha seus próprios e fieis adeptos.
Foto: Francisco Cepeda
Tye Trujillo de apenas 12 anos de idade roubou a cena no palco
A luz azulada e o som similar ao de uma sirene anunciaram o Korn. E a massa bramiu entusiasmada. Jonathan Davis, de saia estampada, seus comparsas Brian Shaffer e James Welch, de dreadlocks emaranhados, o talentosíssimo Ray Luzier nas baquetas e, à sua direita, sobre uma plataforma que atenuava a baixa estatura, o convidado Tye Trujillo. Todos os olhos nele e o menino, compenetrado, seguia à risca sua função, enquanto a banda executava “Right Now” e “Here to Stay”. Excursionando com o Korn, o tecladista convidado Davey Oberlin colaborava para deixar a experiência mais climática.

O repertório da noite teve canções pinçadas de pelo menos dez discos, sem grande favorecimento a uma fase sobre outra. A irresistível “Word Up”, que em estúdio exibe uma faceta mais pop do Korn, foi interpretada ao vivo de forma fria e desleixada, sequer tocada até o final. Sem dúvida, o ponto baixo da apresentação.

Tye Trujillo, por sua vez, pulverizava as suspeitas sobre a pouca idade e, surpreendentemente, misturava-se com naturalidade aos adultos. Com postura, boa técnica e metido numa camiseta da banda sueca Meshuggah, subia e descia da plataforma, às vezes entusiasmado em poder chacoalhar a cabeleira ao lado do guitarrista Brian “Head” Welch.
Foto: Francisco Cepeda
Brian "Head" Welch e o precoce Tye Trujillo no fundo
A iluminação deixava o palco quase sempre muito claro, e as guitarras, saturadas, com a famosa afinação baixa do nu metal, criavam um clima estranho; quase estéril. Tudo é parte da receita que fez a música do Korn resistir bravamente ao teste do tempo. São diversas faixas baseadas em riffs repetitivos e que criam pequenos mantras, estendidos até explodirem em algum refrão que manda tudo às favas. “Blind”, parte do repertório do show, é ótimo exemplo dessa fórmula que influenciou muita gente, de Sepultura a Linkin Park.

A apresentação teve ainda solo de bateria, Jonathan Davis causando com sua gaita de foles, um dueto de baixo e bateria para prestigiar o baixista mirim, muito aplaudido, e a poderosíssima “Make Me Bad”. “A.D.I.D.A.S”, dessa vez, ficou de fora.

O bis, previsível, trouxe os dois maiores êxitos comerciais do Korn. “Falling Away From Me”, com sua introdução misteriosa e atmosférica, é das melhores coisas que o grupo já produziu e gerou uma tremenda ovação assim que a banda retornou ao palco. 

Freak on a Leash”, por fim, fez todo mundo voltar a 1998, momento em que o Korn foi dos grupos mais populares do planeta, liderando a parada da Billboard e indicado a nove prêmios no Video Music Awards, da MTV. Funciona bem ainda hoje e também como uma pequena cápsula do tempo, que ajuda a explicar sobre os estertores da última boa década da música pop.
Foto: Divulgação
Pessoal da Nasa acerta na mistura em seu primeiro disco
PESSOAL DA NASA
"Testamento"
Toca Discos; 2017
Por Bruno Eduardo


O disco de estreia do Pessoal da Nasa, banda carioca que tem pouco mais de cinco anos de estrada, é certamente uma das melhores formas de entender a nova "cena" roqueira que se espalha por aí - principalmente no mundo virtual. A total independência de distribuição artística provocada pela internet acabou transformando as bandas em criaturas tentaculares, onde a maioria delas prefere se definir como "sem definição" - tamanha é a vontade de atirar em todas as direções e agradar o mundo inteiro. O grande problema é que na maioria das vezes, elas erram todos os alvos. Felizmente, isso não acontece em "Testamento". 

Aqui, tudo é muito bem untado e sem excessos. A ânsia da banda em mostrar que tem fogo na lenha para queimar fica evidente, mas devidamente restrita a cada ocasião. Com isso, a banda acerta em cheio, principalmente porque mesmo não tendo o rock como uma bandeira levantada, ela entendeu que o rock é o ponto que une todas essas influências expelidas em sua arte. 

Além dessa consistência na proposta sonora, existem alguns lampejos que tornam a música do Pessoal da Nasa algo realmente diferenciado. O mais evidente é a capacidade de fazer letras realmente boas. Não são aquelas junções de estrofes clichês para soar desesperadamente pop ou descolado. Há inteligência, humor e contexto em todas as mensagens. "Boatos", que abre o trabalho, poderia ser um hit radiofônico fácil se tivéssemos rádios 'de verdade' ou se alguém realmente ligasse para isso. A canção demonstra essa força criativa do grupo, que numa bela sacada, coloca em pratos limpos a rivalidade Rio x São Paulo de forma leve e sagaz. A faixa seguinte, que dá nome ao disco, traz referências melódicas de uma Nação Zumbi e também segue essa mesma peça bem humorada e estruturada de melodias e estrofes certeiros: "Quando eu morrer, faça um favor ó meu amor / Quero que me cremem / Cinzas é melhor / Cemitério é ruim / Eu prefiro subir de uma vez". Só essa dobradinha inicial já vale o ingresso nesse universo estudado pela galera da Nasa, que faz do disco um verdadeiro laboratório - conseguindo quase sempre ótimos temperos para esse cardápio de difícil definição.

No entanto, o grande destaque de 'Testamento' está na forma que o grupo se mostra e se assume como uma banda de rock, mas que podem sim, interpretar diversas influências sem perder a pegada. Então, pode ser retrô ("Amigos e Fantasmas"), pode ser pop/psicodélico/brega ("Férias") e pode ser old school ("Topless") que tá tudo certo. Só não pode deixar de ser rock, porque é exatamente nele que a banda cresce e mostra que é sabida. Ouça "Saruel", "Londres" e principalmente, "Zinho", que é, sem sombra de dúvidas, a perfeita definição do que é o som do grupo. Então não perca tempo e cole rápido nesse disco, pois ele é certamente uma das boas opções de novas investidas do rock nacional em 2017.
Foto: Divulgação
Depeche Mode volta com "Spirit", seu novo e ótimo disco de inéditas
DEPECHE MODE
"Spirit"
Verve Records; 2017
Por Gabriel Sacramento

O Depeche Mode é uma banda que realmente tem o que dizer com seu trabalho. Seja falando por meio da atmosfera obscura, atmosférica e fria que a banda desenvolveu revolucionando todo o contexto da música eletrônica nos anos 80, ou por meio das letras pessimistas que vão de política e religião a abusos de drogas, sempre, como uma vez disse o compositor Martin Gore, com “algum elemento de esperança”.

Se a banda merece respeito e reconhecimento por ter influenciado tantos grupos e artistas importantes para a música, merece destaque também por ter mantido a boa fase depois de tantos anos. Assim como um de seus maiores influenciados, o Deftones, o Depeche Mode vem a cada disco nos ensinar como manter constância na carreira e como sempre soar relevante mesmo depois de ter atingindo o ápice. Vale ressaltar que eles não fazem isso buscando a solução mais fácil, que seria a autorreferência barata. Cada álbum tem um frescor novo, único, que reflete o momento da banda.

O primeiro single liberado, “Where’s The Revolution”, traz uma forte crítica política. Gore pergunta: “Quem está tomando suas decisões, você ou sua religião? Seu governo? Seu país?”. Além da conclamação à revolução que parece não estar perto de acontecer, a banda nos envolve com uma base cheia de texturas impressivas e um som com um feeling meio industrial. “The Worst Crime” é mais arrastada, tensa e triste, com uma guitarra ressoando forte, encharcada de efeitos. A canção possui um clímax interessante no refrão, mas sem perder a linearidade e a melancolia. Batida eletrônica, vocais distorcidos e outros elementos eletrônicos preponderantes formam “Scum”, que vem para deixar claro que o Depeche Mode ainda é autoridade quando se fala em música feita com sintetizadores. A mesma autoridade que faz a banda ter liberdade para uma espécie de jam eletrônica longa em “Cover Me”, com um solo de sintetizador e um pouco da atmosfera carregada da música – que inclusive lembra vagamente o Pink Floyd.

Poison Heart” remete à soul music, música indie e possui aquela verve obscura típica da banda. “So Much Love” é mais um exemplo de boas texturas, boas guitarras entrelaçadas, batidas fortes e industriais e de como esses elementos unidos conseguem cativar o ouvinte. Destaco também as melodias do refrão, com um potencial grandioso justamente por ser difícil tirá-las da memória. “Poor Man” começa com sintetizadores simples e precisos, desbocando em uma grande e confusa massa sonora do meio para o final. A letra vai fazer uma crítica às grandes corporações e como lucram indevidamente em cima dos empregados. Talvez até uma crítica às grandes gravadoras. “Going Backwards” tem uma letra pessimista sobre os rumos da humanidade depois de acontecimentos recentes, como a eleição de Trump e o Brexit. “Não temos evoluído, não temos respeito, perdemos o controle”, canta Dave Gahan.

Ouvindo da primeira até a última música, ficamos com a boa sensação de que o álbum possui uma coesão incrível e que cada faixa parece conectar e oferecer um adicional à anterior. Do início ao fim, a banda nos intriga com seu som frio, seco, texturizado, lento e dark. Não há espaços para o que o ouvinte tenha alívio. Em cada segundo de Spirit, o Depeche Mode evidencia com muita classe sua veia inorgânica e futurística.

A produção é de James Ford, que trabalhou com o Arctic Monkeys e Florence + the Machine. Ford conseguiu conciliar bem o desejo de soar moderno e de alguma forma revelante para os dias atuais, mantendo o som típico do grupo. Ou seja, ainda que com os mesmos elementos de sempre, temos um Depeche Mode que soa interessante. Essa atemporalidade impressiona e eleva a música, assim como atesta a capacidade de se manterem vivos depois de anos.

Spirit é denso, frio, caótico, eletrônico e mecânico. Sem momentos de leveza ou de diminuição da tensão, o Depeche Mode nos força a viajar em suas texturas, ser imersos no mar de frieza e “roboticidade”; e no meio de tudo isso, nos mostra um pouco de beleza. As letras mostram um Depeche Mode antenado no que está ocorrendo no mundo, mesmo que não tão contundentes quanto deveriam ser. Talvez não seja também tão pessimista quanto a banda costumava ser, e nem tão sombrio nas atmosferas, já que o foco é o eletrônico. Ainda assim, o novo álbum é um dos mais intrigantes da banda, mostrando que a fórmula ainda funciona, se encaixa bem no contexto histórico e tem um longo prazo de validade.
Foto: Divulgação
O vocalista do Bad Religion vai além do punk em seu novo disco
GREG GRAFFIN
"Millport"
Anti Records; 2017
Por Luciano Cirne


Todo roqueiro que se preze conhece o Bad Religion e, mesmo que não tenha o mínimo apreço por punk rock, reconhece a importância da banda. O que só os fãs e algumas almas mais antenadas sabem é que o vocalista Greg Graffin é uma pessoa, digamos assim... Singular no cenário. Além de ter phD em paleontologia e lecionar numa conceituada faculdade americana quando não está em turnê, é escritor, multi-instrumentista (toca muito bem guitarra, gaita, bateria, banjo e piano) e tem um leque de influências musicais muito maior do que o seu conjunto o permite transparecer: Quando escrevi aqui mesmo no ROCKONBOARD sobre o incompreendido álbum 'Into The Unknown' (se ficou curioso para ler, clique AQUI), mostrei o quanto Greg amava rock progressivo. Já em seus trabalhos solos ele mostra outras facetas, de raízes fortemente fincadas no country, folk e no rock setentista de bandas como o Eagles e o Farm.

Em 'Millport', seu terceiro trabalho solo - que curiosamente, não sei se de forma proposital ou não, foram lançados em intervalos regulares de 10 em dez 10 anos, o primeiro sob a alcunha de 'American Lesson' - Greg juntou uma turma de respeito para apoiá-lo: além de o velho amigo que o acompanha desde os primórdios do Bad Religion, Brett Gurewitz (e que ainda por cima é dono da Anti, gravadora pela qual o disco foi lançado), participam ainda o baixista e o guitarrista do Social Distortion (Brent Harding e Jonny Wickersham, respectivamente) e o baterista David Hidalgo Jr., que entre outros já tocou com o CJ Ramone e o Los Lobos. O resultado de tanta gente calejada junta foi um trabalho lindíssimo de letras fortes e inteligentes e, principalmente, de um cuidado com os arranjos cada vez mais raro. 

O primeiro single "Lincoln's Funeral Train" (cover do bardo folk Norman Blake) talvez cause uma primeira impressão errada por ser a mais triste do álbum, porém momentos como esse são raros e eventuais. O que predomina é um country/folk ensolarado, como as faixas "Sawmill", "Too Many Virtues" e "Echo On The Hill" atestam. Além disso temos pequenas pérolas como "Making Time", a melhor do disco, que parece sobra de estúdio do já citado Eagles; "Backroads Of My Mind", com seus violões repletos de slides;  "Time of Need", de fortíssima influência Gospel (bem entendido, ok? Não o que o povo aqui no Brasil rotula como tal!) e a bela canção que encerra os trabalhos com chave de ouro "Waxwings", que parece ter sido roubada do repertório do Black Crowes.

Ao final dos seus 31 minutos, uma dúvida vem à mente: será que alguma boa alma poderia fazer o favor de enviar uma cópia de 'Millport' para nossas insípidas duplas sertanejas?? Melhor ainda, será que alguém poderia trancar todo esse povo num quarto e forçá-los a ouvir este disco até não aguentarem mais?? Quem sabe assim dessa maneira eles finalmente aprendem que dá pra fazer um country com uma pegada diferente, melodias mais ricas e principalmente letras que fogem dessa lenga-lenga de dor de corno / festa?

Greg Graffin acertou na mosca e fez um discaço, que pode ser curtido tanto pela turma de meia idade que parou nos anos 1970, quanto para punks de mente aberta que já conhecem o trabalho do Bad Religion e sabem o quanto seu vocalista é uma figura eloquente. Recomendadíssimo e presença certa na lista dos melhores de 2017!
Foto: Divulgação
O primeiro disco do supergrupo Crystal Fairy é uma grata surpresa
CRYSTAL FAIRY
"Crystal Fairy"
Ipecac Recordings; 2017
Por Luciano Cirne

Quando membros de conjuntos consagrados se juntam e formam o que nós no jargão jornalístico costumamos chamar de "supergrupo", quase sempre a satisfação é garantida. Bons exemplos não faltam: Them Crooked Vultures, Oysterhead, Audioslave, Velvet Revolver, One Day As A Lion e etc. A lista é realmente extensa. O bom, é que agora podemos acrescentar também o Crystal Fairy nessa. 

Assim que surgiram os primeiro rumores que gente com um currículo acima de qualquer suspeita como Buzz Osbourne e Dale Crover (guitarra e bateria do Melvins), Omar Rodriguez-Lopez (At The Drive-In, Mars Volta) e a vocalista da banda mexicana ainda pouco conhecida por aqui Le Butcherettes, Teri Gender Bender estavam reunidos em estúdio para gravar um disco, já dava para imaginar que viria algo bom por aí; o que não imaginava era que seria tão bom e talvez, desde já, sério candidato à lista dos melhores de 2017.

De todos os envolvidos, somente o Melvins remete - ainda que apenas em momentos esporádicos - à praia do Crystal Fairy, como no caso da faixa-título com sua pegada a la Black Sabbath, ou das lentas e pesadas "Drugs On The Bus" e "Under Trouble" (que parecem ter saído do lado b do clássico disco do Black Flag, "My War"). Mas o que predomina na maior parte do tempo é um rock rasgado, sujo e sobretudo direto (tirando a já citada "Under Trouble", nenhuma canção tem mais de 4 minutos), como se fosse um amálgama entre o punk oitentista e tudo que foi produzido de melhor no cenário alternativo dos anos 1990. Prova disso são as violentas faixas de abertura "Chiseler", cujos riffs se assemelham muito aos dos primeiros trabalhos do Queens Of The Stone Age e a de encerramento "Vampire X-Mas", trilha sonora ideal para uma session de skate. Há também espaço para algumas esquisitices que dão um charme todo especial ao álbum, como o cover da bizarra e obscura banda hardcore californiana Tales of Terror ("Posesión") e "Bent Teeth", que soa como uma versão porrada do Jane's Addiction, além da curiosa "Secret Agent Rat", a única cantada na língua nativa da vocalista.

O Crystal Fairy não é uma banda de fácil assimilação, mas convenhamos: quem espera algo dentro dos padrões quando temos dois integrantes do Melvins envolvidos na jogada? E vamos combinar também que num cenário musical cada vez mais insosso e saturado de gente soando rigorosamente igual, ver que ainda tem quem esteja disposto a nadar contra a corrente é sempre bem-vindo. É um conjunto de gente calejada, com um bom tempo de estrada na bagagem, mas que mantém intactos a energia e o tesão pelo que fazem, e isso transparece a cada segundo. Não se prenda a rótulos e deixe para lá essa coisa de "supergrupo"; caia dentro desse disco pelo que ele realmente é, uma joia esporrenta e brutal que precisa ser descoberta! 
Foto: Divulgação
Primeiro disco da Não Alimente os Animais é uma viagem aos anos 70
NÃO ALIMENTE OS ANIMAIS
"Não Alimente os Animais"
Retrola Discos; 2017
Por Bruno Eduardo

Não há muita discussão quanto a isso. A década de setenta continua sendo até hoje o período mais influente do rock and roll desde que o mundo é mundo. A maior prova disso, é que mesmo beirando a meia década de evolução planetária, com metamorfoses culturais irreversíveis, há uma quantidade considerável de artistas que continuam investindo pesado na manutenção de suas principais referências, que sempre passeiam entre nomes mitológicos como Jimi Hendrix, Led Zeppelin e toda aquela gangue de doidões geniais que mudou o mundo da música, iniciando assim um culto que perdura até os dias de hoje. 

Sendo assim, podemos dizer que ainda há muita gente surfando nessas ondas. Na atualidade, o maior exemplo dessa reprodução em nível mundial é o grupo americano Rival Sons [que inclusive esteve no Brasil em dezembro abrindo a turnê do Black Sabbath]. Bem, mas você não precisa ir tão longe para beber em novas fontes setentistas. Basta ouvir o disco de estreia da banda Não Alimente Os Animais, que nada mais é que uma cartilha fidedigna ao gênero. Qualquer desavisado poderá jurar que este trabalho foi concebido há uns 40 anos atrás - sério mesmo. O álbum, homônimo, reserva ainda uma das capas mais legais dos últimos tempos. Com fotografia de Rayza Roveda, a arte que emoldura o disco traz os integrantes da banda com máscaras de animais, prestes a iniciar um banquete.

A hendrixiniana "It's Gonna Be This Way (On My Mind)", que abre o disco, é uma síntese enxuta, mas certeira. Com riff marcante, solos limpos e melodia afinada, a canção é daquelas que tocam de boa nesses bares esfumaçados, regado à cervejas e discos de vinis. Para quem pensa que o grupo só banha seu som em grupos gringos, "Have No Feelings Inside", é um desmentido enfático. Cheio de vocalizações divinas, a faixa remete ao lado "Racional" do saudoso Tim Maia. Porém, quando se fala de anos 70, pouca coisa faz tanto sentido quanto os teclados preeminentes da cósmica "And I Try" e a manipulação sonora de "King Kong" - que surpreende os ouvidos com sua mudança andamento e gargalhadas assustadoras. 

Mesmo que o som do baixo pareça evidentemente abafado em algumas partes do trabalho (como por exemplo em "Un Espejo En Cada Mirada") e que a proposta da banda dê a impressão que cantar em português não é a melhor opção ("Náufragos Pertos dos Cais"), podemos afirmar de forma categórica que não há números dispensáveis nesse debut do quinteto e todas as faixas conseguem soar deliciosamente saudosas e cheias de feeling (principal elemento para funcionalidade desta receita). Uma coisa é certa: os espíritos do rock sideral já abençoaram esta obra. Que venha logo o segundo trabalho!
Foto: Divulgação
Wayne Coyne e cia. seguem firmes na exploração psicodélica
THE FLAMING LIPS
"Oczy Mlody"
Warner Bros; 2016
Por Lucas Scaliza


Para quem esperava um álbum mais amigável ao público, como eu, acabou se deparando com um misto de canções e pirações psicodélicas instrumentais - como aquelas que Wayne Coyne compôs em discos dos anos 90 e início dos 2000 – que não são pesadas como em The Terror (o disco mais difícil do The Flaming Lips) mas também não deixam de representar um desafio para o ouvinte menos acostumado a longas músicas ambiente.

Assim, embora a ideia sonora que perpassa o trabalho seja um primor, nem sempre as canções funcionam bem, podendo causar tédio em alguns momentos, principalmente se o ouvinte não estiver no momento mais viajante de seu dia.

Oczy Mlody”, a linda introdução, dá o tom para músicas como “How??”, “Sunrise (Eyes Of The Young)”, “The Castle”, “We a Family” (esta com participação de Miley Cyrus) e a primeira parte de “There Should Be Unicorns”, todas com potencial para embalar o ouvinte e, de fato, representam o melhor do Flaming Lips neste novo disco. Mesmo que existam algumas interferências mais psicodélicas, que servem justamente para tirar um pouco da segurança do ouvinte, elas não são nenhum desafio.

O restante das faixas serve muito mais como exploração de texturas e experimentações sonoras - uma lembrança de um lado musical de Coyne e Cia que realmente é capaz de afundar na psicodelia enevoada. “Nigdy Nie (Never No)”, “Galaxy I Sink”, “Do Glowy” e a longa “One Night While Hunting For Faeries And Witches And Wizards To Kill” se desenvolvem ao longo de diversos tipos de sons de teclado e sintetizador e um baixo que ora soa orgânico, ora eletrônico, ora distorcido. Aliás, a mistura dos timbres de baixo e sintetizador é o que move a estética de 'Oczy Mlody' até o fim da audição.

Todas as faixas são tristes, noturnas e cósmicas, como se a viagem de ácido nos tivesse levado para um espaço repleto de estrelas néon. Há conforto nessa vista, mas estamos em gravidade zero, à deriva.

Levando em conta diversos fatores, dá para dizer que o álbum começa bem, termina bem (Miley Cyrus se beneficiou muito da parceria com a banda e vice-versa) e em seu miolo tem várias ótimas ideias. No entanto, as explorações instrumentais tomam tempo demais e acabam tornando a paisagem sonora bem turbulenta. É lógico que isso tem um lado positivo, que é a recusa do Flaming Lips de se tornar mais pop e menos exigente, contudo, Oczy Mlody parece dividido entre dois universos e não decide em qual deles quer ficar.

Os singles se salvam todos, mas teremos que esperar mais alguns anos se quisermos ver o palco de Wayne Coyne transformado em uma festa surreal novamente, com papel picado, serpentina e bolas coloridas. Por enquanto, reflete apenas a nossa tristeza interior.
Foto: Divulgação
Sepultura dá passo à frente com disco ousado e cheio de novidades
SEPULTURA
"Machine Messiah"
Nuclear Blast; 2017
Por Ricardo Cachorrão Flávio


'Machine Messiah' começa de forma louvável, mostrando que o Sepultura não parou no tempo, não se prende nem se importa com a ladainha de velhos integrantes que não cansam de dar declarações polêmicas e não se transformou em cover de si próprio, como é mais do que comum em bandas tão longevas como eles. A faixa título, que abre o disco, é uma constatação cristalina de que a banda não ficou refém do passado. Ela começa lenta, com Derrick Green mostrando que não é apenas um vocalista de berros guturais. Ele aparece cantando de forma limpa e bem postada e a música vai crescendo ganhando ritmo gradual. É uma bela canção. Diferente, mas é Sepultura.

A sequência é pau puro! “I Am the Enemy”, que a banda já havia divulgado ano passado, é um crossover metal-hardcore nervosíssimo, pra tocar o puteiro nos shows e fazer a roda ficar insana! Logo depois, experimentos bem vindos... “Phantom Self”, outra que já havia sido liberada, começa com uma batida de maracatu que me remeteu diretamente à Nação Zumbi, banda que o Sepultura sempre respeitou e chegou a gravar. Mas no desenrolar da canção vamos descobrindo que é muito mais que isso. Há a presença de uma orquestra tunisiana que dá um clima apocalíptico à faixa. Além disso, a cozinha de Paulo Xisto e Eloy Casagrande fazem a cama perfeita para os solos cortantes de Andreas Kisser e a massa sonora vinda dos violinos da orquestra. Grande canção!

De acordo com o release do álbum, entrevistas e o ‘making of’ divulgado pela banda com o andar das gravações, feitas na Suécia, 'Machine Messiah' foi inspirado no uso da tecnologia e no processo de robotização da sociedade. Sua capa é um belíssimo trabalho feito pela filipina Camille Dela Rosa, intitulado “Deus Ex-Machina”, segundo Andreas Kisser, não foi um trabalho feito por encomenda, foi feito há seis anos, mas, na medida para o conceito do álbum que vieram a gravar, ou, o que se pode chamar de casamento perfeito.

É um disco que se deixa ouvir por inteiro, e não há como indicar um ponto alto isolado, já que todas as canções têm seus méritos. Da mesma maneira, não existem pontos negativos no álbum. “Alethea” começa com um excelente trabalho de percussão de Eloy Casagrande, talvez o melhor baterista que a banda já teve. E no embalo vem a 'cacetada' instrumental “Iceberg Dances”, que passa do heavy metal clássico a várias outras influências com uma naturalidade impressionante.

Sworn Oath” aproxima a banda de thrash ao metal convencional, com quilos de teclados deixando um clima grandiloquente, épico. Derrick Green grita forte, e bem colocado e a faixa traz o peso característico da banda, mas sem acelerar. Como diriam os "headbangers malvados", é música para assustar velhinhas indefesas. Já “Resistant Parasites” começa como o velho Sepultura, nervoso, brutal, mas os teclados e orquestrações dão um toque diferenciado no decorrer da canção, que conta também com solo limpo que destoa da base suja e pesada característica da banda, isso é o que eu quis dizer lá no início, o Sepultura não parou no tempo. “Silent Violence” e “Vandals Nest” são porradas certeiras, pra não deixar pedra sobre pedra.

Para fechar esse manifesto ao virtual domínio da máquina sobre o homem, “Cyber God”, que novamente mostra um Derrick Green cantando de forma límpida e mais segura que nunca. Uma bela canção para findar um excelente disco.

Num balanço geral, o Sepultura completa 33 anos maduro e ainda com lenha pra queimar. Enquanto os irmãos Cavalera saem em turnê cantando e tocando Sepultura, e aproveitam para destilar veneno e acusar os remanescentes de negar uma reunião, Andreas, Paulo, Derrick e Eloy trabalham firme e mostram do que são capazes, numa clara evolução desde 'Against' – o primeiro trabalho pós-separação. E sempre é bom lembrar que Derrick Green está completando 20 anos de banda, que é bem mais do que Max cantou com eles. Para os antigos e chatos fãs xiitas, existe a ressalva cristalina de que o Sepultura nunca parou. Quem saiu foi o Max - na época indo contra até mesmo ao inseparável irmão - e Derrick merece maior respeito de todos, pois sempre honrou a banda, seus fãs, e como está mais que constatado neste novo disco: possui qualidade de sobra. 

Que venha a turnê! Que venham novos discos!
Foto: Divulgação
Dropkick Murphys mostra boa forma em seu sexto disco de estúdio 
DROPKICK MURPHYS
"11 Shorts Stories Of Pain & Glory"
Born & Bred Records; 2017
Por Ricardo Cachorrão Flávio


'11 Shorts Stories of Pain & Glory' é o nono álbum de estúdio do Dropkick Murphys, excelente banda de celtic punk formada no estado de Massachusetts, EUA, em 1996, e que estava desde 2013 sem lançar nada de novo, quando saiu 'Signed and Sealed in Blood'.

A história de gravação desse álbum começou quando a banda decidiu sair de Boston pela primeira vez para gravar e se isolar longe de casa, família e situações cotidianas. Foram para o Texas e chegaram a explicar que o tempo passa para todos, e em tempos passados eles não tinham tanta coisa para esquentar a cabeça, por isso definiram que precisavam desse isolamento para dedicação total ao trabalho e a partir de maio/2016 começaram a postar vídeos com as sessões de gravação no meio do nada.

Segundo algumas declarações do baixista e vocalista Ken Casey, este álbum foi muito influenciado pelo trabalho que a banda realiza com o The Claddagh Fund, uma instituição de caridade criada e mantida pela banda desde 2009, para ajudar a recuperação de pessoas do vício, além de apoiar crianças abandonadas e veteranos de guerra.

Indo ao que interessa... Dropkick Murphys é uma banda que não grava simples canções, mas o que se ouve num álbum da banda é uma seleção de hinos! E assim começa, com a belíssima canção “The Lonesome Boatman”. Sim, é um hino... Sim, a banda é dos EUA... E sim, o sangue irlandês corre e pede uma caneca de Guinness para acompanhar a audição!

A sequência vem com “Rebels With a Cause”, que fala de crianças que são abandonadas a sua própria sorte e o sistema as classifica como desesperadas, essa é um punk rock mais direto e urgente, sem a veia celta que acompanha a banda. “Blood” é a próxima e a gaita de foles fala alto, e pede outra caneca de Guinness!

Sandlot” começa com um violão e logo parece que estamos ouvindo uma velha canção dos Pogues, energia pura! “First Class Loser” nos leva de volta até a Irlanda e a impressão de que entoamos mais um hino. “Paying My Way” é a sequência e é outra daquelas que Ken Casey diz ter influência da fundação, fala sobre o caminho para se sair do vício e mirar coisas maiores e melhores na vida.

E o disco vai rolando e chega outro grande momento, “You’ll Never Walk Alone”, aquela mesma entoada pela torcida do Liverpool FC, e que já foi gravada por tanta gente, que vai de Frank Sinatra a Elvis Presley, no caso do Dropkick Murphys, também tem a ver com vício e o trabalho social da banda. Segundo Ken Casey, é de conhecimento público que está ocorrendo uma epidemia de overdoses de derivados do ópio (heroína, por exemplo) nos EUA, e, em particular, em Boston os números são alarmantes. Segundo ele, já esteve em mais de 30 casas de recuperação nos últimos dois anos dando apoio, e recentemente, o vocalista da banda, Al Barr, perdeu um cunhado para esse vício. Menciona que ao sair de uma dessas visitas essa música veio na cabeça e analisando a letra, se resumiu exatamente como ele se sentia, triste, mas sabendo que existe esperança, “Você nunca precisará andar sozinho”!

Em seguida, “4-15-13”, uma homenagem às vítimas do atentado a bomba durante a Maratona de Boston, que eles passaram a conhecer pessoalmente, pois estiveram visitando e tocando para todos no hospital, também como parte do trabalho social que desenvolvem.

Until The Next Time” encerra o álbum no mesmo nível que começou, muito bem... apesar da banda ter passado o segundo semestre de 2016 divulgando singles desses álbum e não ser totalmente novidade o que ouvimos, por ser lançamento oficial de 2017, podemos dizer que o ano começou bem, muito bem.
Kings Of Leon soa mais renovado em "Walls", seu sétimo disco
KINGS OF LEON
"Walls"
Sony Music; 2016
Por Lucas Scaliza


Uma banda renovada. Definitivamente, o novo disco do Kings Of Leon é menos caipira, menos rock rural, e mais moderninho e urbano. Mesmo quando uma música tenta mostrar as características mais marcantes da banda – como os fills e solinhos de guitarra de Matthew Followill em “Waste A Moment” –, a canção acaba nos remetendo a outras referências que não são exatamente os seis discos já lançados pela família Followill. No caso de “Waste A Moment”, ela chega ao refrão como o U2 chegaria. Já “Reverend” e “Over” mostram a banda realmente explorando um novo horizonte musical. Mas como repreendê-los? 

A explicação para tal mudança na sonoridade é a crise que a banda enfrentou após os fenômenos “Sex On Fire” e “Use Somebody” de Only By The Night (2008), disco que mais vendeu do quarteto. As vendas de discos caíram vertiginosamente nos lançamentos seguintes – passando de 2 milhões de cópias para menos de 400 mil no ótimo Mechanical Bull (2013). Chegava o momento de repensar os rumos da carreira para ganhar a atenção do público e, quem sabe, não ser mais um refém de “Sex On Fire” nos shows. Uma das saídas foi romper com o antigo produtor, Angelo Petraglia, e contratar Markus Dravs, o mesmo responsável pela transição do Coldplay, que foi do indie rock ao pop. A escolha de Dravs deixou claro que o Kings Of Leon buscava mudança.

Sendo assim, WALLS reposiciona a banda musicalmente. O álbum limpa os trejeitos mais sulistas do grupo - tornando-os mais palatáveis para um público de festivais - e tira do mapa as guitarras incendiárias de Mechanical Bull. No entanto, a banda sai da zona de preguiça que marcou Come Around Sundown (2010). Em Walls, o Kings Of Leon não soa como uma banda nova, mas renovada, disposta a apostar em ideias mais frescas. Daí temos a dançante “Around The World” com uma guitarrinha estralada que lembra Cindy Lauper, uma linha de baixo de Jared que é uma delícia, e a mão de Dravs fazendo uma progressão de notas no refrão que é muito parecida com a técnica usada em Reflektor, do Arcade Fire. E temos também “Muchacho” que impressiona por não tentar ser mais do que uma música agradável, passando do melancólico ao simpático com uma suavidade que não é (ou não era) o forte da banda.

Faixas lentas e que costumavam criar um clima etéreo com notas longas de guitarra foram substituídas por baladas mais convencionais, como “Conversation Piece”, em que o teclado de Dravs novamente dá as caras, acompanhando o dedilhado manjado, mas bonito, de Matthew. E “Walls”, que fecha o álbum, é uma das melhores canções já gravadas pela banda. Uma balada levada por violões e percussão que imita as batidas de um coração. Exige paciência do ouvinte. Chega ao final como uma lagarta que se liberta do casulo para se mostrar uma borboleta. Tem a guitarra característica de Matthew e a letra é sobre o fim de um relacionamento, mesmo depois de muita luta para manter o amor vivo. Escolhida como uma dos singles do disco, demonstra certa coragem da banda e confiança no próprio taco.

Além de reposicionar a banda, uma das conquistas de Dravs e do Kings Of Leon foi aumentar a resposta emocional das músicas com um novo jeito de pensá-las e escrevendo letras sobre suas intimidades. Embora seja um disco mais curto do que os antecessores, entretém bastante e a produção não é tão carregada que possa descaracterizar a banda (o sintetizador em “Find Me” quase passa despercebido e “Eyes On You” é perfeita para o quarteto tocar ao vivo). Não abandonam o rock, mas há sacrifícios nesse departamento também.

De certo modo, acabam sendo mais homogeneizados pela necessidade de voltarem a ser relevantes comercialmente. Contudo, mesmo não sendo o mais original possível, WALLS é uma volta digna. Toda a delicadeza que não encontravam mais nos últimos discos, encontraram nas letras mais confessionais, no novo produtor e gravando de novo em Los Angeles, no mesmo lugar em que foram feitos Youth & Young Manhood (2003) e Aha Shake Heartbreak (2004). Uma mudança de ares que fez bem aos Followill.