ROCKONBOARD NEWS

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Soundgarden na época do disco "Superunknown", lançado em 1994
Por Bruno Eduardo

Uma coisa é certa: não fossem os caminhos percorridos pelo Nirvana, provavelmente o grunge ficaria nos arquivos como um nicho incrível de bandas independentes que não prosperaram mundialmente. Mas isso não é tudo. Antes de Kurt Cobain quebrar o mundo no meio, tinha mais gente trabalhando para prosperidade da cena, e é aí que entra o nosso homenageado do texto.

A história que todo mundo conhece, é que com exceção de alguns nomes igualmente necessários (como Mudhoney, Melvins e Screaming Trees), os expoentes de Seattle saíram dos becos e apoiados pela MTV e encheram os bolsos de cifras, tornando-se os principais representantes do rock 90. O sucesso foi tão impactante, que de uma forma totalmente obscura, ajudou a deteriorar a tal inocência juvenil que pontuava um dos movimentos mais importantes que o mundo do rock viu surgir um dia. Toda essa história está devidamente esmiuçada de forma sublime no Documentário Hype (quem não assistiu, que faça logo!). Ainda nos anos noventa, a luz dos holofotes sobre Seattle foi tão forte que muitos não seguraram a onda, e consequentemente sofremos três perdas irreparáveis para a biografia da cena (o próprio Kurt Cobain, Layne Staley, e o precoce Andrew Wood).

Só que para sentido histórico e de tributo necessário, precisamos falar de um dos álbuns mais bem sucedidos do grunge: Superunknown, do quarteto Soundgarden. É impossível olhar para este disco hoje em dia (ainda mais depois de tantas baixas) e não pensar em todo caminho percorrido por outro ícone dessa geração: o cantor e guitarrista do Soundgarden, Chris Cornell. Inclusive, não seria exagero afirmar que Cornell chega a ser demasiadamente subestimado quando o assunto é a difusão deste movimento, que depois da fama mundial, levou o carimbo de "grunge". Para muitos, o grunge existiu pelas mãos de Kurt Cobain, o que não deixa de ser uma verdade também, já que em 1991 ele trouxe os olhos do mundo inteiro para a pequena e fria cidade americana ao compor o petardo 'Nevermind'.

Mesmo sem o carisma musical de seus conterrâneos, o Soundgarden foi a primeira banda do movimento a assinar com uma gravadora de nome - isso ainda no fim dos anos oitenta. A exposição do grupo aumentou com o estouro do grunge (leia-se Nirvana), e 'Badmotorfinger', lançado no fatídico ano de 1991, levou a banda para a MTV. Por justiça do destino, o Soundgarden se tornou realmente grande com o lançamento de Superunknown, e Chris Cornell alcançou a fama merecida de rockstar pop com três anos de atraso (depois de Vedder, inclusive).

De amigo particular a padrinho do grunge

Analisando a história do grunge de forma a pontuar momentos significativos, podemos dizer que Cornell foi uma das figuras que mais disseminou a cena de Seattle (mais do que Cobain, por exemplo). Antes de o sucesso bater à porta, ele era companheiro de quarto e principal influência do carismático vocalista do Mother Love Bone, Andrew Wood. Após a morte de Wood, vítima de overdose, Cornell decidiu juntar os ex-integrantes da banda e montou um projeto para homenagear o amigo. Esse projeto, batizado de Temple Of The Dog, apresentou o vocalista Eddie Vedder ao mundo, e consequentemente "formou" o Pearl Jam. A importância de Cornell na história do Pearl Jam (a banda mais rentável do grunge até os dias de hoje), é outro caso à parte. Na época, ele já era um músico conhecido no mundo do rock e o Soundgarden tirava do bolso o também fundamental, 'Badmotorfinger'. Mesmo assim, Chris apadrinhou Vedder e deu força aos demais integrantes para que o PJ seguisse em frente. A história que pouca gente conhece, é que Eddie Vedder, por vir de outra cidade, sofreu uma espécie de preconceito do público e das bandas locais, e foi devidamente resguardado por Cornell, que adotou o vocalista como seu novo amigo de quarto, e manteve amizade até os últimos dias de sua vida. A ligação entre as duas bandas ficou ainda mais explícita com a ida do baterista Matt Cameron para o Pearl Jam após o Soundgarden se dissipar em 1998.

O ápice popular em 'Superunkown'

Embora o super hit "Black Hole Sun" seja uma música de melodia pop, o disco 'Superunknown' não é. Aliás, ele passa longe de ser. Com excessão das ótimas levadas particulares de "Fell On Black Days" e "Day I Tried To Live", o álbum contém toda obscuridade dos antigos trabalhos só que lapidados de forma sublime. Talvez ele seja menos agressivo que seu antecessor, mas é um álbum que mantém as raízes "sabbathicas" - com guitarras esparsas e letras misteriosas. Além de "Black Hole Sun", a música "Spoonman" também rendeu um Grammy ao grupo, o que ajudou na popularidade de 'Superunknown', certificado cinco vezes por disco platina. A importância deste disco para o grunge, é que ele pode ser considerado o último golpe sublime desse movimento, que deteriorava-se de forma tão avassaladora quanto a sua chegada ao topo do planeta. 'Superunknown' é o último grande sucesso do embrião grunge no mainstream - principalmente na MTV - e sua importância segue fixa na pele de quem respirou rock no idos dos anos noventa.
Pink Floyd / Dark Side Of The Moon
Capa de Dark Side Of The Moon, uma das mais belas da história
Por Bruno Eduardo

Cobiça, insanidade e envelhecimento. Há pouco neste mundo que se compare aos sentimentos de ansiedade e tranquilidade despertados por uma composição musical. Há quase 44 anos, o Pink Floyd conseguiu fluir uma obra através de sua própria alma - fugaz dentro e fora de sua consciência, exigindo atenção e, lentamente, permitindo que seus complexos padrões de ritmo se perdessem em uma atmosfera turva, mas espessamente sonora. 

De fato, The Dark Side Of The Moon é uma arte incrível!

O álbum foi originalmente lançado no dia 1º de março de 1973, um ano maravilhoso para se estar vivo, acredito. As paisagens nebulosas, expressas nesta obra musical, serviram como um cenário perfeito para perceber detalhes mundanos que corriam nos ventos da globalização, que engatinhava lentamente. Com 10 brilhantes movimentos, incluindo uma abertura, uma elegia e estilos psicodélicos neo-barroco, The Dark Side Of The Moon, estranhamente, acabou por figurar entre os discos “fáceis” do Pink Floyd, e talvez por isso, é também o predileto entre quase todos os amantes do rock, e da música em geral.

Relógios tiquetaqueando de forma eloquente, sons de uma caixa registradora, riso enlouquecido e vozes podem ser ouvidas ao longe, juntamente com os talentos vocais de Clare Torry. Toda a loucura de Syd Barret está expressamente exposta, mesmo que sua presença física não se fizesse. Após a saída de Syd, totalmente tomado por sua insalubridade mental, o grupo resolveu dar novos rumos à sua arte, com letras mais pessoais, de abordagem mais específica, e uma diminuição considerável pelas passagens instrumentais – que em outros álbuns chegavam a durar dez, vinte minutos. 

Em 1972, 'Dark Side Of The Moon' acontecia colateralmente ao disco Obscured by Clouds. Após o lançamento do genial Meddle (1971), a banda já tendia a uma nova proposta, que acabou sendo trabalhada de forma paralela, e que rendeu vários testes ao vivo. Tanto que o disco acabou sendo gravado em mais de uma sessão, num intervalo de quase um ano de concepção artística e engenhosa.

'Dark Side Of The Moon' foi produzido por Alan Parsons - que já tinha trabalhado com a banda no disco Atom Heart Mother. O disco foi concebido no Abbey Road Studios, localizado na cidade de Londres, entre 1972 e 1973. A vontade de inovar ultrapassou todos os limites, inclusive no aspecto financeiro, já que a produção foi uma das mais caras da história. Mas deu certo. Ele vendeu mais de 50 milhões de cópias no mundo inteiro e rendeu alguns dos maiores clássicos do grupo, como “Time”, “Money”, “Us And Them” e "The Great Gig in the Sky". O disco ainda ficou mais de 700 semanas no topo das paradas da Billboard.

Fora todo o sucesso comercial que envolve o disco e sua relevância artística, existe ainda uma lendária e curiosa relação com o clássico dos cinemas “O Mágico de OZ”. No fim dos anos 90, começaram a circular vários boatos de que se o disco fosse tocado de forma simultânea ao filme original, de 1939, era possível notar várias correspondências entre as duas artes. O grupo já declarou que tudo não passava de mera coincidência, já que na época, não existiam vídeo-gravadores. Outra curiosidade sobre 'Dark Side Of The Moon', é que a banda quase desistiu do título - por ele ser homônimo a um trabalho da banda Medicine Head, lançado em 1972. O álbum iria se chamar 'Eclipse', mas como notaram o insucesso do Medicine Head, resolveram manter o título original. Já em 2010, a banda Flaming Lips resolveu prestar sua homenagem ao clássico, e regravou o disco na íntegra – mantendo o título original.

A capa do álbum que acompanha o vinil de 'The Dark Side Of The Moon' é verdadeiramente uma manifestação da capacidade criativa, que latejava nesse momento de transição do grupo. O design é maravilhosamente simples. Uma luz que entra no prisma da esquerda e é refratada em um belo arco-íris. A cor é uma parte de tudo - simbolizando beleza e revolta - e o prisma representa a luz do sol, que nada mais é que uma combinação de todas as cores radiantes.

Em 'The Dark Side Of The Moon', o Pink Floyd tentou descrever em alguns minutos, todos os grandes mistérios da confusa existência humana dentro de mentes descontroladas e em conflito externo contra uma sociedade igualmente incompreendida. No entanto, é incrível saber como ele continua tão atual e igualmente inovador nos tempos atuais, onde pessoas continuam cada vez mais lutando contra doenças sociais, motivadas quase sempre pelo capitalismo selvagem - tanto criticado pela banda nos anos setenta. 
Em 1991 o U2 introduziu um novo conceito em sua obra com Achtung Baby
Por Rosangela Comunale

"Se nossos antigos fãs não aceitarem nossas mudanças é porque não evoluíram e o U2 não precisa deles mais. Os anos 80 morreram, estamos olhando pra frente". E foi assim que Bono Vox rebatia às críticas sobre a mudança drástica no som da banda logo no início dos anos 90. Afinal de contas, tratava-se de uma surpresa non grata para quem, na década anterior, curtia aquele som rebelde e contundente que arrebatava multidões  com gritos politizados como em “Sunday Bloody Sunday” ou “Pride (in the name of love)”, ambas representativas de momentos políticos impactantes mundialmente.

Mas estamos no ano de 1991, pouco depois da queda do muro de Berlim. Um marco que acabou não sendo histórico só para o mundo das relações políticas. Tudo isso porque foi nesta mesma época que o planeta recebe uma “boa” nova da banda mas que não foi exatamente boa assim para quem era fã das antigas. Surge o álbum Achtung Baby com uma proposta conceitual totalmente diversa.

Com letras mais introspectivas, densas e, por que não, poético-filosóficas (“Love is a temple, Love the higher Law”) como em “One”, a banda ainda perpassa por um viés experimental típico da época, a onda eletrônica Dance. E a mistura, convenhamos, deu certo o suficiente para surpreender quem deu de ombros ao perceber que tinha saído da linha rock blueseira do álbum anterior Rattle´n Hum.  

Taí a prova de que  Bono estava certo. O mundo passou a conhecer faixas como “Mysterious Ways” e “Even Better than the Real Thing”. E a mudança acabou rendendo frutos.  Aliás, depois de Achtung Baby, o futuro criativo da banda continuou com Zooropa (1993) e Pop (1997). Para muitos, os caras não acertaram em deixar as raízes musicais, o que, provavelmente, provocou a perda de fãs. Por outro lado, ganharam outros. Fato.

Aí você pode perguntar: e a veia politizada dos caras neste álbum? Foi pro ralo? Nada...

O trabalho conta com a faixa “Zoo Station” que remete a um episódio ocorrido na Segunda Guerra Mundial em Berlin quando um Zoológico foi bombardeado e os animais acabaram fugindo (“I´m ready to take it to the street, ready for the shuffle”). E ainda tem essa: Sabe o que quer dizer o nome do álbum? “Achtung” em alemão significa “Atenção”. E o “Baby” foi para remeter à influência ocidental que a Berlin oriental estava experimentando na época da queda do muro. Conceitualmente, o trabalho foi para ressignificar de uma forma musical o momento de transição por qual Berlin estava passando, saindo do Comunismo. Daí a razão de eles terem, inclusive, gravado o álbum lá. Sinal de que mudaram, “ma non troppo”.

Mas... Lembra da declaração lá no início? Achtung Baby foi mais uma lição de moral desses irlandeses - bem no estilo ativista, do qual levantam tantas bandeiras. Parafraseando Bono, mudar pode significar evoluir. Parece ser esta a lição que o álbum deixou aos seus seguidores. E talvez por isso, acabou se tornando o segundo disco mais vendido da banda, com 18 milhões de cópias vendidas no mundo inteiro e um Grammy na coleção.
Imagem: Fishbone  / The Reality Of My Surroundings
Em 1991, o Fishbone reuniu o melhor do funk metal em "The Reality..."
Por Douglas Moura

Anos 90. Com a curiosidade aguçada pelo sucesso de bandas como Faith No More, Red Hot Chili Peppers e Living Colour, resolvi conhecer melhor os outros expoentes do tal funk metal, nome dado à leva de bandas de crossover que tomava de assalto todas as rádios do Brasil, sem falar na MTV. Não existia internet naquela época, muito menos Youtube. E comprar discos importados numa era pré-Plano Real era quase tão caro quanto trazer o artista para um show particular no playground do próprio prédio. Sendo assim, como eu já conhecia quase tudo das bandas mais famosas do “movimento”, fui atrás daquela considerada precursora de tudo aquilo: o genial e subestimadíssimo Fishbone. 

Consegui, a duras penas, uma cópia em fita cassete do maravilhoso Truth and Soul (1988) com o amigo de um amigo, que pouco tempo depois foi levada, junto com meu Walkman, por um ladrão de ônibus que, certamente, não deve ter curtido o baixo sobrenatural de “Bonin’ in the Boneyard” e a maravilhosa “Ma and Pa”. Depois desse incidente, tive que urgentemente mandar trazer de Paris, o melhor disco desse grupo, que apesar de nunca ter chegado ao mainstream, influenciou toda aquela geração de bandas criativas, cujo ápice comercial foi exatamente no início dos anos noventa. Estou falando de The Reality Of My Surroundings, álbum de 1991 do Fishbone.

Pra começar arregaçando, o disco já abre com “Fight The Youth”, pauleira com seus riffs de guitarra à la Living Colour entremeados com fraseados de saxofone (say what?!?), dando o prenúncio do que viria a seguir. Devido à sua formação com guitarras, baixo, bateria, teclado e o trio de vocalistas / naipe de metais, a mistura de estilos da banda (ska, punk, pop, metal, soul, jazz, reggae, e às vezes tudo junto na mesma música!) soava complexa e ao mesmo tempo leve, original, genuína. Petardos como “So Many Millions” e “Naz-Tee May’en”, com batidas quebradas e suingadas, são verdadeiras aulas de crossover! Já “Pray to The Junkiemaker” e “Housework” eram canções divertidas mais na linha do ska/reggae, com letras ironicamente carregadas de questões sociais como as drogas e a violência doméstica. 

Seguindo em frente, faixas ao longo do álbum com improvisações ao vivo (“If I were... I’d”) davam pequenas amostras da energia dos shows da banda (“inacreditáveis”, diziam críticos e um invejado conhecido que teria ido ao festival Lollapalloza daquele ano). Os destaques, no entanto, ficam por conta de “Everyday Sunshine”, canção alto-astral com vocal de estilo gospel e linha de baixo pulsante do monstruoso John Norwood Fisher (reverenciado por 11 entre 10 baixistas da época), e “Sunless Saturday” - que foi a primeira música de trabalho do disco, com direito a videoclipe filmado por ninguém mais, ninguém menos que o renomado diretor Spike Lee, ícone das causas ligadas aos negros norte-americanos, o que dava toda a impressão de que o futuro do Fishbone seria promissor. 

Só que infelizmente não foi. E sabe-se lá o verdadeiro porquê! Talvez o Fishbone fosse complexo demais, quase experimental. É bem verdade também que, com o sucesso batendo à porta, as tensões internas tomaram proporções gigantescas - culminando na prisão de John Norwood Fisher, acusado de sequestro (!!) do guitarrista Kendall Jones, que havia anunciado sua saída da banda para se juntar a uma seita religiosa. Talvez tenha sido por isso também que “Give a Monkey a Brain” (lançado em 1993) - apesar de ter grandes momentos (como “Swim”, “Servitude” e a estupenda “Unyielding Conditioning”) - fosse tão irregular. Mas, mesmo assim, eles mereciam muito mais do que o simples status de banda “cult”. 

Resumindo esse sentimento generalizado de injustiça, Les Claypol, vocalista/baixista do Primus, em depoimento ao documentário “Everyday Sunshine - The Story of Fishbone”, afirmou que o Fishbone foi muito além de todas aquelas bandas fortemente influenciadas por eles. Depois de ouvir essa obra-prima que é The Reality Of My Surroundings, meus amigos, fica difícil discordar... 
Foto: Black Sabbath (1970)
O primeiro disco do Sabbath é um dos mais influentes da história
Por Bruno Eduardo

O primeiro disco do Black Sabbath é considerado por muitos como a obra-prima do heavy metal. Embora alguns defendam a tese de que Led Zeppelin I, lançado no ano anterior, teria sido o responsável pela criação da coisa, é inegável que a grande maioria das bandas do heavy metal, surgidas nos anos posteriores, teriam no Black Sabbath a principal referência artística para suas obras. A grande temática encontrada no heavy metal atual, que hoje possui diversos segmentos, foi extraída principalmente dessa tese obscura e inovadora que quarteto de Birmingham criou em 1970. A importância de 'Black Sabbath' para a história do rock pesado é tão crucial, que hoje, exatos 46 anos depois de seu lançamento, fica-se a nítida impressão que o estilo continua se reinventando a cada audição do mesmo. Para ajudar você a entender a lenda, decidimos destacar algumas curiosidades, dessa que é a pedra inicial do que hoje em dia chamamos de heavy metal.

Blues Metal?

Numa época que não existia heavy metal, era difícil alguém conseguir definir o som do Black Sabbath. Para Geezer Buttler, a banda fazia um "blues pesado", pois era um ritmo lento e que possuía outros atrativos. Em "The Wizard", a banda inclui um diálogo brilhante entre riffs pesadíssimos e uma gaita estridente. Essa é até hoje, uma das músicas mais inclassificáveis da história do metal.

Disco gravado em um dia

A banda achou que um dia era tempo demais para gravar um disco, então se trancaram no estúdio e gravaram tudo ao vivo em uma mesa de apenas 4 canais. Segundo Iommi, eles isolaram Ozzy num canto separado da sala e foram tocando ao mesmo tempo. No total, foram doze horas de estúdio e a banda garante que nunca fizeram uma segunda versão da maior parte do que foi registrado. O segundo dia foi só para mixagem.

Sexta-feira 13

Como não podia deixar de ser, o Black Sabbath lançou seu primeiro disco numa sexta-feira 13. Eles receberam apenas 600 libras para fazer este trabalho. O disco saiu pela Vertigo, e foi produzido por Roger Bain.

Várias versões

Existem várias versões deste álbum espalhadas pelo mundo. Dependendo da versão, você pode encontrar uma variação no nome das canções. A europeia tem "Evil Woman" como a primeira faixa do lado B, enquanto a versão americana tem "Wicked World". Já a remasterizada de 1996 possui as duas. Quem tem a Black Box leva vantagem pela organização das faixas.

Sem trovoadas?

Ao colocar a agulha no LP, sinos, trovoadas e um som de chuva caindo causam uma atmosfera assustadora para o riff imortal de Tony Iommi, na abertura da faixa que leva o nome do grupo. Porém, há uma versão deluxe, lançada mais recentemente, com faixas alternativas. E uma delas, é de "Black Sabbath" sem o som adicional dessas trovoadas. Vale conferir, embora a grande maioria prefira a versão original.

Referências literárias

O disco trazia também muitas referências literárias. A mais marcante é na excelente "Behind the Wall of Sleep", baseada numa obra do escritor americano Howard Phillips Lovecraft, que por conta disso, acabou virando referências para outras bandas de heavy metal no futuro. Ele acabou tendo várias de suas obras citadas por bandas consagradas nas décadas posteriores - como Metallica e King Diamond.

Satânicos?

A fama de banda satânica e adoradora de "Lúcifer" foi criada aqui, neste trabalho inicial da carreira. Nenhum outro disco do Sabbath, da fase Ozzy, possui letras tão obscuras e com influências explícitas ao ocultismo (ouça "N.I.B."). Devido a isso, eles foram acusados pelo público conservador de promover o satanismo entre algumas regiões. No início houve uma rejeição de grande parte da população para o estilo, mas ironicamente, ajudou também a aumentar a popularidade da banda, que viu crescer uma enorme legião de seguidores, em sua maioria, jovens.

Capa do disco

Uma das maiores curiosidades deste trabalho é a fotografia que ilustra a capa. Por muito tempo, pessoas diziam que a tal "mulher" da fotografia, era uma bruxa, depois afirmaram ser um bruxo, e na maior delas, diziam que era o Ozzy Osbourne! Mas o fato é que o local desta foto acabou se transformando uma grande atração turística, principalmente pelos amantes do heavy metal. Para quem quiser conhecer, trata-se do Moinho de Mapledurhan no rio Thames.

Sucessso de vendas

Black Sabbath alcançou o TOP 10 da parada inglesa. O primeiro trabalho do grupo ganhou disco de platina tanto na Inglaterra quanto nos EUA. O disco também fez muito sucesso no Canadá. Depois disso, eles enfileiraram clássicos, que vieram marcar a história do rock e influenciar várias gerações de bandas. Mas isso é uma história que não precisa ser contada.
Dois discos duplos e uma megaturnê no auge da fama
Por Bruno Eduardo

Pouco antes do grunge invadir de vez o mainstream, o Guns N'Roses fabricou aquele que seria o último suspiro de sua supremacia comercial. Após um excelente disco de estreia e um segundo lançamento que rendeu o super hit "Patience", a banda decidiu apostar em dois álbuns duplos, ou seja: quatro LPs de uma só vez. Um exagero, de acordo com o guitarrista Slash - mas que combinava perfeitamente com o modelo robusto do grupo naquele momento. Aliás, é sempre bom lembrar: ninguém era maior que o Guns N' Roses em 1991.

Para conceber as duas partes de Use Your Illusion, eles tiveram que sobreviver ao último capítulo dos devaneios provocados pela ideologia sex, drugs and rock and roll - perseguida pela banda desde 1985. A mudança para Chicago e a entrada do baterista Matt Sorum coincidiram com as apresentações do grupo na segunda edição do Rock in Rio - onde apresentaram algumas faixas do álbum em primeira mão. 

Muitos afirmam que o período de feitura de Use Your Illusion foi fundamental para que a banda começasse a se deteriorar internamente. Os meses de estúdio serviram para aumentar as divergências pessoais entre os integrantes - que acabou culminando no pedido de dispensa do guitarrista Izzy Stradlin. Slash, por exemplo, chegou a declarar que teve de se contentar em gravar trinta e seis faixas em 36 dias, quando o que ele queria mesmo era um disco curto, com apenas dez faixas - no mesmo modelo de Appetite For Destruction. Os mandos e desmandos de Axl o incomodavam, é verdade, mas o guitarrista também vivia uma viagem de volta às drogas. De acordo com o próprio, a faixa "Coma" foi composta durante um delírio provocado pela heroína.

Dividido em I e II, Use Your Illusion foi lançado em setembro de 1991, e totaliza mais de 30 milhões de cópias vendidas no mundo inteiro e dez singles nas paradas de sucesso. Ambas as capas são baseadas na tela renascentista "A Escola de Atenas" - sendo uma amarela e a outra azul. O álbum traz um conjunto de canções ambiciosas e que deixam um pouco de lado o hard rock rasgado de Appetite. Curiosamente, algumas faixas foram escritas nos primórdios da banda e podem ser encontradas em uma das primeiras demos do grupo, batizada de Rumbo Tapes - como "Back Off Bitch", "Bad Obsession" e "The Garden". 

A busca por algo maior - artisticamente falando - deixava evidente a participação de Axl como principal compositor neste trabalho, assim como a inclusão de novos elementos (pianos e vocais femininos). Por falar nisso, é o primeiro disco do Guns N' Roses com o tecladista Dizzy Reed, que entrou no grupo em 1990. Entre os maiores sucessos estão duas versões covers - "Live An Let Die", de Paul McCartney e "Knockin On Heaven's Door" de Bob Dylan - e duas baladas épicas "November Rain" e "Don't Cry". Das músicas mais pesadas, o maior destaque foi "You Could Be Mine", que fez parte da trilha sonora de O Exterminador do Futuro 2. 

Para a maioria dos fãs, os melhores momentos de Use Your Illusion estão em sua segunda parte. Faixas como "Civil War" e "Estranged" refletem de forma genuína a proposta ampliada que o grupo queria mostrar na época do lançamento. Grandiosidade que fez parte da turnê de divulgação do disco. A Use Your Illusion Tour durou 28 meses, sendo até hoje uma das maiores da história do rock. Mesmo com amplo sucesso e shows nos maiores estádios do mundo, ela ficou marcada por diversos cancelamentos e confusões com o público. Numa dessas, Axl Rose desceu do palco para brigar com um fã que o fotografava utilizando flash e abandonou o show logo depois - o cantor acabou amargando alguns dias na cadeia por isso.

No que diz respeito ao ponto de vista histórico, Use Your Illusion não é tão pontual como Appetite For Destruction, mas ele traz o Guns N' Roses em suas maiores proporções. Todos os exageros cometidos pela - na época - maior banda de rock do planeta podem ser encontrados aqui, e permanecem intactos até hoje.

Por Lucas Scaliza

Ela já tinha lançado dois discos, Alanis (1991) e Now Is The Time (1992), mas nada perto das 33 milhões de cópias que seu disco seguinte venderia no mundo todo. Tinha só 21 anos quando coescreveu as músicas que fariam parte de Jagged Little Pill - que mudaria de vez a sua carreira. Além disso, sendo uma canadense de Ottawa, Alanis Morissette teve de lidar com o fato de entrar nas programações de rádio e competir por espaço, que já era usado por outras mulheres, como Sinéad O’Connor e Tori Amos, como se, para o mercado do entretenimento, houvesse uma cota para a promoção de cantoras. Questões de gênero que eram estranhas no meio da década de 1990 mas que, hoje, se tornam ainda mais relevantes.

O disco trouxe o rock alternativo de Alanis para o primeiro plano da música mainstream. Esse tipo de movimento – do nicho para as massas – é algo que sempre ocorreu na música: seja com os psicodelismos dos anos 60, o progressivo dos 70, o punk e a new wave de 70-80, o hip hop ou o grunge. No caso de Alanis, além do rock dela ser diferente do britpop que rolava na Europa e do grunge que tinha virado uma onda nos Estados Unidos, seu timbre de voz e interpretação vocal eram muito peculiares. “You Oughta Know”, seu primeiro monstruoso sucesso, já trazia todos esses elementos. (Mesmo assim, “Right Through You” é inegavelmente uma canção que deve muito ao grunge de Nirvana e Soundgarden).

Alanis foi chamada de “jovem angustiada” por algum tempo, tornando-se uma marca dela. Ela começou a colocar sua música no mundo ainda adolescente e com uma energia agressiva e até um pouco amarga, resquícios do grunge e do punk que se infiltravam na juventude daquela época. Jagged Little Pill conseguiu chegar ao grande público aproveitando muito bem toda a atitude que a cantora tinha de sobra, mas com um polimento especial do produtor Glen Ballard, que ajudou a escrever as músicas. Mas Ballard não podou Alanis. Ao que parece, canalizou suas potencialidades. O resultado foi um álbum de 12 faixas, sendo que seis se tornaram singles, e ficou em primeiro lugar no Canadá por 24 semanas. Nos EUA, 12 semanas como número um da Billboard 200.

Alanis Morissette ainda estava no ensino médio quando consegui o disco de platina com seu primeiro álbum e viu o segundo vender só metade do primeiro. Após se formar, trocou Ottawa por Toronto e mesmo assim não teve muito progresso. Deu um grande passo geográfico, indo para Los Angeles, a Meca do entretenimento. Foi um movimento arriscado: ela não tinha tanta grana assim e dormia nos sofás de amigos. Foi uma época difícil e está descrita em “Hand In My Pocket”. Ganhou a confiança de Ballard, que a ajudou e permitiu que usasse seu estúdio. Além das boas letras que ela compunha, sua capacidade vocal era – e continua sendo – impressionante, ainda mais para uma menina de apenas 19-20 anos. Claro que ela é do tipo que pode soar (e às vezes soava) histriônica a cada verso, mas ela aprendeu a domar o estilo de cantar e Jagged Little Pill é um ótimo exemplo de como isso começou a funcionar.

Ballard e Morissette escreviam e gravavam uma música por dia, mas sem fazer mais do que uma ou duas tentativas, para preservar o estilo natural da cantora, sem floreá-la demais. A gravação dos instrumentos que aparecem em cada música foi adicionado depois, usando as gravações demo da voz. O baixista Flea e o guitarrista Dave Navarro, ambos no Red Hot Chili Peppers na época, tocam em “You Oughta Know”. Uma curiosidade: Taylor Hawkings, do Foo Fighters, foi o baterista da turnê deste álbum.

A explosão causada pelo álbum catapultou Morissette para o topo da cadeia alimentar do pop entre 1995 e 1996. Com a internet pouco desenvolvida, era comum as pessoas se interessarem pela música dela mas só se darem conta de quem ela é de fato – de como se parece, qual o seu penteado, que roupas usa – ao vê-la ao vivo. Muitos novos fãs, a julgar por suas letras, achavam que a canadense teria um visual mais punk, mas na verdade ela era bem sóbria.

Existem dezenas de temas que são caros às mulheres e aos jovens de qualquer gênero no álbum, mas a sexualidade ali presente tinha ares de posicionamento político e espiritual, principalmente em “Forgiven”. Em uma entrevista para a Rolling Stone em novembro de 1995, Alanis, que vem de uma formação religiosa católica, diz que acabou rejeitando qualquer conceito de religião organizada, mas ainda tinha espiritualidade. “Quando estou no palco, é muito espiritual. Me sinto perto de Deus quando estou lá em cima”, ela diz. Contudo, conta que seus problemas com a igreja católica têm a ver com a repressão sexual. Jovem e indo à igreja todos os domingos, sua personalidade acabou dividida. “Eu era ativa e fazia mesmo coisas que eram sexuais quando era mais nova. Havia um lado meu que era louco e depravado, fazendo coisas que estavam a frente do meu tempo, e por outro lado eu era muito contida, querendo permanecer virgem como uma boa menina branca e católica”, ela disse há 20 anos.

Mas Jagged Little Pill não é sobre sexo e sexualidade (apenas). Há uma grande variedade de temas que para adolescentes da época eram extravasados em forma de música pela primeira vez. “O disco é a minha história”, disse Morissette. “Acho que ele discorre sobre as diferentes facetas de minha personalidade, uma delas sendo a sexual”.

O álbum foi indicado para nove prêmios Grammy e ganhou cinco, incluindo o de Álbum do Ano. Ela tinha apenas 21 anos na época e era a artista mais jovem até então a ganhar o prêmio. Ela manteve esse título por 14 anos, até Taylor Swift, aos 20 anos, levar a premiação com Fearless.

Passa no teste do tempo?

Jagged Little Pill é o tipo de álbum que precisa ser resgatado, o que já está acontecendo por parte das comemorações de seus 20 anos. Com o feminismo ascendente, é especialmente importante analisá-lo sob essa perspectiva. Em uma recente entrevista, Morissette revelou que não se deu conta até recentemente como o disco era um hino feminista. “Em termos de percepção do público sobre isso, só percebi depois. Não havia outra intenção além de fazer um disco que eu pudesse apoiar e amar. No que concerne o feminismo, acho que o que está acontecendo agora é que mais homens estão sendo convidados para essa jornada e, pelo menos eu, chamo isso de movimento feminino – tem a ver com adotar os aspectos femininos de nossa humanidade”.

Jagged Little Pill foi mais uma força no sentido de fortalecer aspectos alternativos no mainstream. No mesmo ano, na Europa, víamos Björk lançar Post e PJ Harvey com To Bring You My Love. Como Lucy Jones bem apontou na NME, o álbum também abriu caminho para outras cantoras que usavam a própria vida como base para suas letras, como Christina Aguilera e Taylor Swift. E não há como deixar de citar Avril Lavigne, que ano depois seria a próxima jovem revelação do rock canadense, conhecida também pelo apelo pop e por escrever as próprias letras e músicas.

Mas o maior teste do tempo é retornar a um álbum e reparar se ele ainda fala, de algum modo, sobre o nosso presente. As pressões, os problemas e as angústias de um jovem (de qualquer sexo), e de uma mulher mais especificamente, continuam sendo as mesmas que Alanis relatou 20 anos atrás. Qualquer adolescente ou jovem-adulto que voltar a Jagged Little Pill vai descobrir um disco que terá muito a ver com o que ocorre ao seu redor e dentro de sua cabeça ainda hoje. Sendo assim, não há como não passar no teste.
A capa de Powerslave é a preferida da maioria dos fãs
Por Bruno Eduardo

Uma banda de heavy-metal que faz homenagem a um instrumento de tortura medieval soaria como uma piada pronta nos dias de hoje. Três décadas se passaram, e Powerslave continua épico em seu tempo. Se o grupo é conhecido hoje por capas de discos fantásticas e uma deslumbrante condução de temas, a culpa é de Powerslave.


Powerslave nada mais é que uma variedade de ritmos, que são impiedosamente esmagados por riffs de guitarras cortantes e um bocado de letras inteligentes. Letras inteligentes? Examinando rapidamente as primeiras capas de discos do Iron Maiden, ninguém poderia imaginar que haveria algum sinal de vida inteligente naquela obra. Afinal, em seus dois primeiros discos, encontramos um zumbi de cabelos crespos chamado Eddie - que mais parece uma criação artística de um jovem de 16 anos de idade, com algum talento. Os títulos também não ajudam: Killers e The Number of the Beast (que viria a seguir) soam clichês demais - aquela velha tentativa de brutalidade e diabrura que 90% das bandas de heavy metal se apoiam. Superficialmente seria patentemente ridículo, mas estamos falando de uma das bandas mais emblemáticas que já passaram por esse planeta.


Afinal de contas, mesmo com uma embalagem ainda mal definida, a banda obteve um verdadeiro sucesso comercial (tanto na Inglaterra quanto ao redor do mundo). Um dado curioso, foi quando alcançaram a marca de 500.000 álbuns vendidos na Finlândia. Estamos falando de um país com apenas cinco milhões de pessoas - brincando com a aritmética, poderíamos dizer que um em cada dez finlandeses possui um álbum do Iron Maiden.


Não se pode negar: no gênero do heavy metal, a música do Iron Maiden é imbatível. Uma variedade ridícula (no bom sentido) de riffs, e níveis impressionantes de musicalidade. 


No entanto, o que sempre separou o Iron Maiden das outras bandas de metal ​​foram os temas de suas canções. O interesse lírico do grupo foi fundamental para que pudessem viver tantos anos num patamar acima - algo entre o cult e o pop. O Iron Maiden nunca escreveu uma música sobre sexo, drogas ou rock and roll. Os caras estavam muito ocupados cantando sobre literatura e história. Atente aos títulos das músicas: "The Loneliness Of The Long Distance Runner", "Flight of Icarus", "Alexander The Grate". Só que nem todos os seus temas são tão transparentes. Por exemplo: "The Trooper" é a versão da Donzela para "A Carga da Brigada Ligeira"; e "To Tame A Land" é baseado no sci-fi clássico, Dune, de Frank Herbert. 


Quando os fãs do Iron Maiden são questionados sobre qual seria o melhor disco da banda, eles certamente apontam para um dos três primeiros de Bruce Dickinson: The Number of the Beast, Piece of Mind ou Powerslave. Cada um deles possui pontos emblemáticos, embora eu ache que Powerslave tenha sido um disco pontual para a definição de um estilo próprio - baseado em temas pré-determinados e capas de discos espetaculares. As músicas do álbum são magníficas. A primeira faixa, "Aces High", é o exemplo de tudo que melhor existe no heavy-metal. Ela fala sobre a Batalha da Grã-Bretanha, contada a partir da perspectiva de um piloto britânico. Na turnê do disco, em 1984/85, o Iron Maiden iniciava seus shows tocando o trecho de Winston Churchill, "Never Surrender", emendada pela música. O que felizmente pôde ser conferido na primeira passagem do grupo pelo Brasil, no Rock in Rio, em 1985.


"Two Minutes to Midnight" é uma canção anti-nuke. Embora haja um trecho com uma afirmação contundente ("o sangue é a mancha da liberdade"), ela também sugere que durante a Guerra Fria, ambos os lados foram iludidos. O título é uma referência ao Relógio do Juízo Final, cujo principal propósito é servir como uma ferramenta de propaganda da esquerda. Na época, muitos duvidaram de que o grupo teria tendências comunistas - eles não têm. Ainda assim, uma das coisas mais legais de Powerslave é essa tentativa de decifrar o significado de suas letras.


Há temas variados, que vão além dos combates aéreos, como a faixa "The Duellists" - relacionada ao swordfighting (luta de espadas) - para quem não sabe, o vocalista Bruce Dickinson é esgrimista. O grupo usou como temas principais, o filme de Ridley Scott, "Os Duelistas" (que por sua vez é baseado no romance de Joseph Conrad, The Duel) e mitologia egípcia (daí motivo faraônico da capa do álbum).


O destaque do Powerslave, no entanto, é a sua última faixa climática, "Rime of the Ancient Mariner". Sim, ela é inspirada no poema de Samuel Taylor Coleridge - de mesmo nome. O crédito da música vai para o baixista Steve Harris, que fez um brilhante e engenhoso trabalho ao conseguir atolar algumas das palavras mais célebres de toda a literatura Inglesa numa canção de rock.  A coisa toda se passa por mais de 13 minutos - onde o Maiden viaja junto ao navegador, atravessando o horizonte com o albatroz, o navio fantasma, e assim por diante. Pelos padrões do rock and roll, a música é um épico. E mesmo com sua longa duração, ela dissipa qualquer chance de tédio - graças, principalmente, a todas as mudanças de clima e suas palavras cheias de significado. 


Ok, há muita gente hoje em dia fazendo música pesada com letra pretensiosa. Não discuto. Embora seja inevitável afirmar que para tudo na vida há uma obra-prima impossível de ser reproduzida.


Esse é Powerslave!
Foto: Metallica (Kill 'Em All)
Debut do Metallica é considerado a obra-prima do thrash metal

Por Bruno Eduardo

Iniciando uma trilogia que fincaria de vez o nome do grupo no mainstream, Kill 'Em All é Metallica supersônico - guiados por riffs sensacionais, solos ultra-rápidos e hormônios em erupção.

Para a grande maioria dos fãs atuais, é realmente difícil olhar para Metallica nos dias de hoje, e pensar que estamos diante daquela mesma banda, que foi considerada um dia, como pioneira de um estilo que percorreu de forma tênue entre o hard e o punk dos anos oitenta: o thrash. A recente biografia de um grupo - envolvido em brigas internas, ou interessado em personificar uma contestada luta contra a pirataria - incapacita qualquer tentativa de reminiscência sonora. Mesmo discordando dos fãs mais radicais, não se pode negar: o Metallica tinha se tornado uma espécie de emblema do excesso rockstar.

“Excesso” pode ser a melhor palavra para definir o caminho tortuoso do grupo em toda sua história de bastidores. Os tais problemas internos que acabaram resultando na criação de Kill 'Em All, ainda ocorrem nos dias de hoje, trinta anos após. Na época, a banda decidiu cortar na própria carne, e demitiu o guitarrista Dave Mustaine – impedindo que a sua personalidade autodestrutiva, acabasse com grupo antes mesmo de lançar o seu debut. Em uma desesperada tentativa de ficar na banda, Mustaine ainda solicitou aos integrantes uma internação no AA, que não foi aceita por James. Para o lugar de Dave Mustaine, que formaria o Megadeth em seguida, o Metallica recrutou o guitarrista da banda Exodus, Kirk Hammett.

Toda essa calamidade psicológica que o grupo sofreu em 1983, fez de Kill 'Em All, um disco libertador. Com pitadas de punk – facilmente sentida no trash quebrado de “Hit The Lights” -, o álbum trazia uma sonoridade próxima ao que o Iron Maiden chegou a sugerir em 1980. De uma crueza sangrenta, veloz e incisiva, o Metallica desenhava ao mundo um novo estilo de rock pesado: estava consolidado o Thrash Metal.

Embora os tradicionalistas discordem, o disco de estreia do Metallica é uma perfeita e genial combinação de dois estilos tão contraditórios (punk e metal), que o aperfeiçoamento da fórmula tinha lá suas restrições. Tanto é que o grupo optou por técnica à rapidez nos discos posteriores – culminando anos depois no alongado script de And Justice For All. Em 1983, James ainda não precisava de aulas de canto, e junto com Kirk Hammett – e Dave Mustaine -, fizeram a maior coleção de riffs marcantes que um dia poderiam (“Seek And Destroy”, “Metal Militia”, “The Four Horsemen”). Nos créditos do álbum, há registro de quatro músicas para Dave Mustaine – embora, ele afirme que tenha proibido o Metallica de utilizar suas músicas e que os solos são dele, e não de Kirk. Porém, tudo não passa de suposições, que enriquecem ainda mais a fábula. 

Para muitos fãs, o grupo não soube envelhecer. Eu discordo. Seria impossível para a banda manter o mesmo ritmo, quando o mundo era capitaneado por empresários, que batiam nas portas das gravadoras com malas e malas de promissórias e cifras. A MTV, que tomou o mercado americano de assalto, foi devidamente apropriada pela banda na década de noventa. Alguns dizem que o som do Metallica foi abalado pelo simples fato de eles entrarem no jogo. Na verdade, defendo a teoria de que eles estavam garantindo seguridade financeira para sobreviver à sua pior fase criativa. E sim, tornaram-se modelos de si próprios. O lançamento do ótimo Death Magnetic (2008) animou alguns, mas comprovou também, que isso é o mais próximo que o Metallica chegará um dia do thrash metal. E como um raio dentro de uma garrafa, Kill 'Em All é igualmente inconcebível.